Contraditório, original e com energia

Leia aqui uma análise sobre Veneza 2009, mostra italiana que merece ser interpretada tanto quanto os filmes que premiou

Luiz Zanin Oricchio, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

Um festival de cinema é como um bom filme - precisa ser interpretado. O de Veneza 2009 pode ser considerado como sintoma de alguns impasses do cinema contemporâneo. Cerca de 2.800 longas metragens do mundo todo se inscreveram. A seleção de 25 entre eles para concorrer a um dos mais prestigiosos prêmios do cinema mundial - o Leão de Ouro - é já uma primeira peneirada reveladora. A recepção a esses 25 eleitos durante o evento, com as críticas negativas ou positivas que ganham, a recepção entusiástica ou indiferente com que são acolhidos, funcionam como segundo filtro. E a última etapa é a premiação, na qual o júri (este ano presidido por Ang Lee, dois Leões de Ouro na estante) desenha o retrato final, aquele que ficará para a História.

A seleção deste ano buscou uma mescla entre filmes que retratam questões prementes e contemporâneas, os de apelo mais popular e os antigamente chamados de "filmes de autor" por seu empenho artístico, sentido de inovação e assinatura pessoal. Claro que não existem limites claros entre essas categorias e uma mesma obra pode, em tese, transitar por todas elas. Mas, para fins didáticos, essas distinções talvez ainda sirvam para alguma coisa.

Por exemplo, para dizer que em Veneza 2009 a primeira categoria saiu amplamente vencedora. Como se o cinema a ser privilegiado e incentivado devesse mostrar sua conexão clara com os problemas do mundo, ou melhor ainda, com as dores do mundo, seja a guerra que não termina, seja a opressão sobre as mulheres. O cinema mais "popular", como Tetsuo - The Bullet Man, Prince of Tears ou Survival of the Dead, comparece e tem seu lugar. Mas não repercute na crítica nem emplaca no júri, mesmo que tão heterogêneo quanto o deste ano em Veneza.

O cinema dito "de autor", porta-voz da cinefilia, da invenção e da qualidade artística acima de qualquer quesito, também não fez grande sucesso este ano. É o caso do maior injustiçado, o filipino Lola, de Brillante Mendoza, exercício formal e de conteúdo sobre o drama social em Manila. Com ele, Mendoza talvez tenha feito seu trabalho mais maduro, sem qualquer apelo fácil à crueza de seus outros filmes, mas expondo em tom agudo a história de duas avós unidas pela pobreza e por um mesmo crime, o que o neto de uma cometeu e o neto da outra foi a vítima. Um Leão de Ouro lhe cairia bem. O fato de ter sido ignorado por completo soa como absurdo.

Além de Lola, outros filmes autorais também foram ignorados, como é o caso do belo Persécution, de Patrice Chéreau, ou do bastante interessante My Son, My Son What Have You Done?, de Werner Herzog, que, este ano entra para a história de Veneza com dois filmes em competição (o outro foi Bad Lieutenant, refilmagem de Vício Frenético, de Abel Ferrara).

Mas o caso mais claro de desprezo ao autoral foi o de 36 Vues du Pic St. Loup, do veterano Jacques Rivette, filme que foi pouco compreendido, ou tido como obra menor de um mestre doente e envelhecido. Nada disso. Envelhecido e doente Rivette, nascido em 1928, pode até estar. Mas 36 Vues é obra de um frescor e um sentido de mistério raramente encontrados hoje em dia. É a história de um circo mambembe, cujo dono morreu e tem de prosseguir o com o show. Chega a filha, Jane Birkin, distante há 15 anos, e também um estranho viajante interpretado por Sergio Castellitto, incorporado à trupe. É o tipo de filme que, com suas alusões, seus espaços em branco e ambivalências tende a desaparecer no furor de uma mostra gigantesca que parece resolver mal a equação entre o culto ao cinema e ao brilhareco midiático. Mas, para além dos festivais, o rigor de Rivette permanece.

Essas ambivalências da Mostra são impasses já pensados por seu diretor há seis anos, o inefável Marco Müller, intelectual e sinólogo que diz enfrentar a maratona com doses cavalares de chás e tisanas especiais, enviados por seus amigos da China. Müller entende que a oposição entre cinema de autor e cinema de massa não faz mais sentido em meio à revolução dos meios audiovisuais que vivemos. Em sua prosa oblíqua, escreveu que a Mostra se propõe como ''retrato panorâmico, comentário e interpretação'' deste novo mundo do audiovisual. E se diz conformado "ante a nostalgia de alguns pela aura perdida das obras-primas tanto quanto pela torcida deslavada pela cultura de massa".

Assim, ao recusar alinhamento entre os "apocalípticos" nostálgicos do cinema de autor ou os "integrados" cultores do cinema industrial, Veneza pretende cavar espaço próprio ao usar essas categorias criadas há muitos anos por Umberto Eco para falar das relações dos intelectuais com a televisão e a comunicação de massa em geral. Veneza fica nem cá nem lá, expurgando-se tanto de expectativas exageradas em relação à arte quando de preconceitos ao popular - o que também pode ser uma forma de se situar em parte alguma e assim perder a identidade. Pode ser também um recurso para se instalar no epicentro da crise audiovisual e fazer as vezes de sua caixa de ressonância. Foi a opção deste ano e parece não ter sido tão má decisão, em fim de contas.

Apesar dos seus vários percalços, Veneza 2009 deverá deixar a lembrança de uma mostra original, polêmica, cheia de energia e que propôs uma série de problemas a quem se dispuser a pensar sobre eles. O que mais pedir a um festival?

Destaques

LEÃO DE OURO PARA MELHOR FILME: Líbano, de Samuel Maoz (Israel)

LEÃO DE PRATA PARA DIREÇÃO: Shirin Neshat, de Zanan Bedoone Mardan (Irã)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Soul Kitchen, de Fatih Akin (Alemanha)

COPPA VOLPI PARA ATOR: Colin Firth - A Single Man (EUA)

COPPA VOLPI PARA MELHOR ATRIZ: Kseniya Rappoport em La Doppia Ora

PRÊMIO MARCELLO MASTROIANNI PARA ATOR OU ATRIZ REVELAÇÃO: Jasmine Trinca em Il Grande Sogno

OSELLA PARA MELHOR CONTRIBUIÇÃO TÉCNICA: Sylvie Olivé - cenografia de Mr. Nobody

OSELLA PARA ROTEIRO: Todd Solondz - Life During Wartime

LEÃO DE OURO PELA CARREIRA: John Lasseter e os diretores da Pixar

JAEGER-LECOULTRE GLORY TO THE FILMMAKER AWARD: Sylvester Stallone

ORIZZONTI: Engkwentro, de Pepe Diokno (Filipinas)

ORIZZONTI DE DOCUMENTÁRIO: 1428, de Du Haibin (China)

MENÇÃO ESPECIAL: The Man''s Woman and Other Stories, de Amit Dutta (Índia)

PRÊMIO LUIGI DE LAURENTIIS PARA OPERA PRIMA (PRIMEIRO FILME): Engkwentro, de Pepe Diokno (Filipinas)

FILME 3-D DO ANO: The Hole, de Joe DanteU

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