Contos trazem ecos de vozes femininas

Mia Couto cria vocabulário próprio para contar 29 histórias de mulheres

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Com O Fio das Missangas (Companhia das Letras, 147 páginas, R$ 34), o moçambicano Mia Couto retorna ao conto homenageando Guimarães Rosa - são 29 narrativas curtas sobre mulheres, que representam as miçangas (ele prefere grafar a palavra com dois ?esses?) de um colar, cujo fio que as une é a própria narrativa, recheada de palavras inventadas, ao estilo rosiano. Sobre a criação, Couto respondeu, por e-mail, às seguintes questões.Você regressa ao conto, gênero literário que parece ser o da sua maior realização. Um conto já nasce conto?Não sei se regresso, ou se, simplesmente, é o conto que regressa. As histórias acontecem, nós não as convocamos. Mesmo que isto seja uma mistificação do ato criativo, eu gosto de pensar assim a relação com a escrita. O modo como o núcleo de uma história se converte em conto ou em romance resulta de um processo caótico. A força de sedução de um personagem cuja vida gostaríamos de prolongar dentro de nós: esse pode ser um motivo de se chegar a um romance. No caso do Fio das Missangas, o que eu quis dizer só podia ser dito em história curta, desenhada num relance. Muitos desses contos, no entanto, eu os sinto como romances condensados.Os neologismos ganham, nos contos, uma função essencial para o entendimento da história. Isso acontece por conta também da brevidade da narrativa?Nunca fui tanto mulher, posso dizer, brincando com a canção de Chico César. O Fio das Missangas pretende ser o eco dessa vozes femininas dentro de mim.Aliás, quando começou a "inventar" palavras? Por quê?A palavra não se inventa. Ela se descobre, removendo a carga de poeira que resulta da utilização funcionária da linguagem e da vulgarização de algo que é um milagre que fazemos todos os dias, a toda a hora. A linguagem do cotidiano não basta para dizer as coisas que quero dizer. E isso exige não uma operação linguística mas poética. O fato de ser moçambicano e viver em Moçambique ajuda pois a língua portuguesa está sendo sujeita a processos de reinvenção e reapropriação para que esse idioma possa veicular valores de uma cultura africana. Esse processo de namoro propicia uma plasticidade enorme, uma liberdade de criação que nem sempre se ajoelha perante a norma. Uma camponesa idosa me dizia: aqui falamos um português do tipo corta-mato.Em vários livros seus, os velhos são guardiães da cultura popular pois trazem o registro dos costumes e do passado. Pela leitura desses contos, as mulheres aparecem como figuras secundárias, às vezes até descartáveis. Como se explica? Teria a modernidade africana algum conflito com essa tradição?A tradição está sendo retrabalhada pela modernidade. Há zonas de conflito, mas no resto existe uma negociação constante entre valores. Este Fio das Missangas, este novo livro é sobretudo dominado por uma escrita que poderia chamar de feminina em que se sugere que o sentimento pode ser o mais radical meio de repensar o mundo e reencontrar as utopias.A capacidade de acreditar no maravilhoso desponta como contraposição ao ceticismo ocidental?Não acredito nessa dualidade. Não existe Ocidente nem Oriente quando se trata deste tipo de processo de imaginação. O racionalismo materialista não sufocou, mesmo no Ocidente, a necessidade de acreditar no absurdo e se fundamentar no pensamento mágico. O resto são rótulos e mistificações que nos apresentam, os do Terceiro Mundo, como povos mais propícios à fantasia. Não nego, porém, que nós (os do Brasil e de Moçambique) tenhamos menos receio em navegar nessas águas, sem receio dessa castração que é o politicamente correto.Em uma entrevista, você disse que queria experimentar o risco. Depois de tantas histórias publicadas, o desafio é cada vez maior?Sim, é verdade. Já publiquei mais de 23 livros. Seria de esperar uma certa banalização e que eu ficasse mais e mais à vontade. Acontece, porém, o oposto. Cada livro novo é cada vez mais o primeiro. Esse medo, afinal, me ajuda a manter vigilância e a enfrentar-me a mim mesmo como meu principal adversário. Escrever é vital para se alcançar um livro, mas escrever demasiado um livro pode ser fatal. Este balanço só se consegue numa relação verdadeira consigo mesmo. Antes de se relacionar com o público, o escritor se confronta consigo mesmo. Não há ato mais solitário que esse rasgar de peito em público. Porque do outro lado, se é verdade, não há ninguém.A literatura nasce da literatura, disse a crítica literária Leyla Perrone Moisés. Em relação à sua, é preciso ressaltar ainda a importância da tradição oral de seu país. Qual a importância de fato que a obra de outros autores tem sobre a sua?Leyla tem razão: a literatura nasce da literatura, mas tem outros berços. E será mais rica quanto mais outras nascentes tiver. Os autores brasileiros tiveram uma influência marcante em mim e em gerações diversas dos escritores africanos de língua portuguesa. É na poesia, sobretudo, que encontrei meus mestres: Drummond, João Cabral de Melo Neto, Manuel de Barros, Adélia Prado, Hilda Hilst. De Portugal, devo ressaltar o nome de Sophia de Mello Breyner e Eugénio de Andrade. Sem esquecer o infalível Fernando Pessoa.O que pensa da reforma ortográfica para a língua portuguesa?Sinto que não vai resolver quase nada. Quando se elege o acordo como a solução para a aproximação dos nossos povos, isso é bandeira sem mastro. Temos distâncias entre nós não por causa da ortografia mas por razões outras. Os moçambicanos sempre leram sem nenhuma dificuldade os autores brasileiros. Os meus livros e os de todos africanos que são publicados no Brasil estão grafados numa outra ortografia, segundo o padrão de Portugal. O que se passa é que os livros não chegam, não circulam. O debate nervoso e crispado sobre o acordo ortográfico faz esquecer essas outras razões de políticas econômicas e culturais que nos fazem, sim, divergir e gravitar em órbitas diferentes. Discutamos estes assuntos com verdade e sem demagogia.O que é ser escritor? Algum tipo de identidade, ou é apenas um ofício?Não posso responder senão no limite do que entendo para mim próprio ser escritor. Eu sou escritor na medida em que sou outras coisas: sou biólogo, jornalista, professor, trabalho com teatro. E sobretudo, cultivo momentos longos em que estou fora da escrita. São vitais esses momentos em que não sou escritor e posso visitar a literatura a partir da oralidade. TrechoNa minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram a saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente noturna. Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha.Belezas eram para mulheres de fora. Elas desencobriam as pernas para maravilhações. Eu tinha joelhos era para descansar as mãos. Por isso, perante a oferta do vestido, fiquei dentro, no meu ninho ensombrado. Estava tão habituada a não ter motivo, que me enrolei no velho sofá. Olhei a janela e esperei que, como uma doença, a noite passasse. No dia seguinte, as outras chegariam e falariam do baile, das lembranças cheias de riso matreiro. E nem inveja sentiria. Mais que o dia seguinte, eu esperava pela vida seguinte.Minha mãe nunca soletrou meu nome. Ela se calou no meu primeiro choro, tragada pelo silêncio. Única menina entre a filharada, fui cuidada por meu pai e meu tio. Eles me quiseram casta e guardada. Para tratar deles, segundo a inclinação das suas idades.E assim se fez: desde a nascença, o pudor adiou meu amor. Quando me deram uma vaidade, eu fui ao fundo. (A Saia Almarrotada)

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