Conheça os ''''The Beatles''''

Chego cedo ao aeroporto Reagan National, ao lado do Pentágono, na capital dos Estados Unidos, sob o signo de uma alerta de cor laranja. É a segunda mais alta, perdendo em gravidade para a vermelha, apenas. Na prática, significa submeter-se a revistas mais rigorosas, filas maiores, esperas, tensão.Desconhecia o motivo da alerta. Ouvi falar, depois, que Bin Laden teria lançado dois vídeos novos na internet em que aparece de barba pintada. Tenho curiosidade em saber se ele mesmo pintou ou se foi atendido por um cabeleireiro. É uma detalhe bobo, reconheço. Mas o procedimento todo de segurança me parece beirar à loucura. Duvido que seja possível monitorar tantas variáveis em todos os aeroportos do país e do mundo. Ao passar pelo detector de metais, sou retirado da fila.Um segurança alto e forte me informa com seriedade que vai revistar minha bagagem de mão. Pergunta se estaria carregando um objeto de metal grande. Respondo que não, não que eu me lembre. Dá a entender que há algo de suspeito no fundo da minha mochila. Viram no raio X. O que será?, penso, curioso, e já um pouco preocupado. Sou desatento a esse tipo de detalhe. Pode ter de tudo ali.Depois de retirar e colocar em uma mesa ao lado blocos de papel, diversas publicações, canetas, camisetas, um calção e uma cueca (limpa, mas mesmo assim me deixou constrangido), o segurança encontra o objeto que aparecera no monitor do raio X. Desembrulha de um saco de papel uma morsa (Odobenus rosmanus), do tamanho de uma banana-nanica, que comprara para meu filho, Samuel, na lojinha da National Geographic. Ah hah, penso eu, então é isso, aí está o danado.A espera pelo avião vai ser longa e penso em achar um bom livro. Nas estantes da livraria, já na asa de embarque do aeroporto, há muita coisa da campanha para a presidência dos EUA. Um livro do Bill Clinton, outro do Obama, as memórias do Alan Greenspan, ex-diretor do Banco Central, que está causando por dizer o que todos já sabem - que Bush é incompetente, diferente do seu antecessor. Não consigo me animar com a política de hoje. Por mais que torça pela Hillary e pelo Barack, é tudo tão ensaiado que perde a graça.Acabo levando um livro de fofocas para veteranos, a autobiografia de Pattie Boyd, primeira mulher de George Harrison, que deixou o Beatle pelo guitarrista Eric Clapton, depois que este lhe dedicou a música Layla, um dos hinos da minha geração.Às suas memórias, Boyd deu o nome de Wonderful Tonight, maravilhosa esta noite, de outra música de Clapton, linda, também escrita para ela, tal como Something, de Harrison (devia ser demais, a Pattie). Durante duas horas me entrego ao saudosismo, enquanto espero o avião, um pouco surpreso com a comoção que aquela época ainda me provoca.Fico sabendo que foi Bob Dylan quem apresentou a maconha aos Beatles. Que George Harrison procurou nos ensinamentos de Maharishi Marhesh Yogi uma alternativa às drogas e depois encheu sua mansão com hare krishnas, que ali passavam semanas, meses talvez, entoando cânticos religiosos durante o dia todo e preparando comidas de aromas exóticos.O livro é meio bobo, e sinto uma ponta de culpa com minha curiosidade pelas fofocas. Acompanhei os mesmos eventos, décadas atrás, criança, fascinado. Os Beatles não eram tão mais velhos do que eu. Foram eles, penso ali no aeroporto Reagan, que primeiro globalizaram a juventude. Acharam os acordes que reverberariam entre jovens do mundo todo, independentemente do país de origem.Lembro-me do escritor Mario Prata contar como conheceu sua música, na década de 1960, e a colocou para tocar no rádio, em Lins, no interior paulista, apresentando-os como ''''os The Beatles'''', com acento na letra ''''a''''.Eram outros tempos, penso enquanto entro no avião. Bin Laden mudou o mundo tanto quanto os Beatles.

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