Conheça Jünger

Quando Ernst Jünger se deparou com a possibilidade de sair da Alemanha nazista para morar em outro país, ele disse ter preferido habitar o coração de um incêndio. Seu testemunho não poderia ser elaborado e divulgado do outro lado do Atlântico. Precisou fazê-lo de dentro da goela do dragão. Estava dada a margem para mais uma polêmica na vida de um homem considerado anti-semita, embora tenha afirmado - em livros e em atos - seu desprezo pelo nazismo. Ele detestava Adolf Hitler, que, segundo a crítica, é o inspirador do tirano de Nos Penhascos de Mármore (1939), a história de dois irmãos que vivem isolados, estudando a natureza, enquanto uma guerra se espalha pela região onde habitam.O fato é que Ernst Jünger foi um escritor que fez "uma representação terrível e devastadora dos totalitarismos, que acaba superando as contingências de época para ganhar a força do símbolo", nas palavras do crítico Antonio Candido. O horror pode ser entendido por meio da ficção. Ele nunca recusou admitir que dentro de cada homem a noite desce - o ser humano transformado em monstro. É o que diz a seguinte frase, extraída do romance Eumeswil - "Todos temos, com efeito, um lado diurno e um lado noturno, e alguns se transformam, com o crepúsculo, em pessoas diferentes."Durante muito tempo, a obra desse escritor, que morreu aos 102 anos em 1998, foi desprezada no seu país, mas cultuada na França, onde Jünger lutou como soldado alemão na 2.ª Guerra Mundial. Após o fim da 1.ª Guerra ele escreveu cânticos de amor à glória da Alemanha, nação a ser forjada com sangue e sacrifício, despertando a admiração dos nazistas. Para alguns compatriotas, Jünger não passava de um nazista mais esperto, mais hipócrita e mais cínico, que arruinava os julgamentos com sua condição ambígua. Autor de Heliópolis, Ernst Jünger era um militarista, admirava o poder de redenção da guerra. Aos 16 anos, mentiu a idade para lutar como legionário na África, onde seu pai foi buscá-lo. Logo depois se alistou para combater na 1.º Guerra Mundial, ganhando 17 ferimentos. Foi o mais jovem a receber a Cruz de Ferro, uma condecoração militar. Sobreviveu às duas grandes guerras e à morte de dois filhos. Seu primeiro filho, Ernst, morreu aos 18 anos, na 2.ª Guerra. O outro, Alexander, se suicidou nos anos 1990.Depois do fim do nazismo, dedicou-se ao estudo e à coleção de insetos. Viajou o mundo. O Brasil, que ele visitou em 1937, aparece descrito em Viagem pelo Atlântico. Quando completou 70 anos, considerando-se velho, resolveu escrever suas memórias. Os diários seriam divididos em seis volumes, mas o último ele não conseguiu terminar. Viveu retirado durante 40 anos em Wilflingen, pequena cidade de Baden-Wurtember, no sudoeste da Alemanha, onde morreu. Os prazeres da velhice de Ernst Jünger vinham da convivência com seus escaravelhos, dos dois cigarros fumados diariamente e da taça de champanhe tomada ao lado da sua segunda mulher, Liselotte.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.