Confronto entre futuro e passado do jazz

Principal atração de mostra que começa hoje em Moema é o show Kind of Blue

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

Jazz, soul, blues e (o legítimo) R&B estão no cardápio da segunda edição do Bridgestone Music Festival, que começa hoje no Citibank Hall, em São Paulo. Os ingressos estão esgotados para hoje e sexta, mas ainda há tickets para o sábado (é possível também torcer por devoluções de reservas, segundo a organização). O show mais esperado da noite - e provavelmente o maior evento do jazz deste ano em todo o mundo - é o concerto que celebra os 50 anos do disco Kind of Blue, de Miles Davis. Veja especial sobre o festivalLiderado pelo baterista Jimmy Cobb, o sexteto que empunha hoje, às 21 horas, as canções de Kind of Blue é estelar: o trompetista Wallace Roney, os saxofonistas Javon Jackson e Vincent Herring, o pianista Larry Willis e o baixista Buster Williams. O álbum é o mais popular da história do jazz e o único a figurar entre Beatles, Stones, Dylan e outros ícones do rock no topo da lista dos 500 maiores discos da revista Rolling Stone.Mas há muito mais na jornada, começando pelas experientes divas Bettye LaVette e René Marie, passando pelo novo soul do Tok Tok Tok e chegando ao novíssimo piano de Robert Glasper, 30 anos, e ao trompete transgressivo de Jeremy Pelt, de 33 anos, um discípulo de Lee Morgan e Freddie Hubbard.Bettye LaVette é um dos grandes portentos do R&B dos anos 1960. Chegou a entrar na fila do estrelato quando gravou um disco para a Atlantic Records, em 1972, mas o disco foi engavetado e ela demorou quase 40 anos para lançar seu primeiro álbum. Foi só no ano 2000, já então com 54 anos, que a sorte de Bettye virou. Um selo francês descobriu e finalmente lançou o "disco perdido" da Atlantic, e ela se tornou um culto instantâneo."Eu sou apenas uma estilista da canção", diz Bettye, de 64 anos, que é ultraengajada, adora política e fez campanha pela eleição de Barack Obama, seu amigo pessoal. É uma das remanescentes de uma era de ouro do R&B americano, gênero que julga que foi vilipendiado por uma confusão estética nos dias de hoje. "Acontece que as pessoas pensam que, se o artista é negro e não canta nem rap nem soul, então só pode ser R&B o que ele canta", ela diz.René Marie, de 54 anos, a outra estrela do dia no palco do Bridgestone (ao lado do trompetista Jeremy Pelt), é uma suave ativista dos movimentos de afirmação racial. Ela conta a seguinte história sobre seu passado: "Uma vez, minha mãe e meu pai, com outros cinco casais negros, tentaram almoçar num restaurante que segregava negros em minha cidade natal, Warrenton, na Virgínia. Numa porta do estabelecimento havia um cartaz: ?No dogs. No Niggers? (Nada de cães. Nada de Negros). De certa maneira, meus pais foram bem-sucedidos naquela noite. Eles entraram no salão, pediram o jantar, embora não tenham sido servidos, e deixaram o local apenas com insultos verbais. Naquele ano, contudo, como resultado do seu protesto, meu pai entrou numa lista negra - foi demitido de seu trabalho como professor e não conseguia mais trabalho no condado para sustentar sete filhos e a mulher."A lição de provocador do pai ecoa fundo nela. Em julho do ano passado, René foi convidada para cantar o Hino Nacional norte-americano numa cerimônia pública em Denver. Em vez de cantar Star-Spangled Banner, o hino oficial, ela surpreendeu e cantou Lift Ev?ry Voice and Sing, de James Weldon Johnson, também conhecido como o Hino Nacional dos Negros da América (aríete dos movimentos negros). Foi um auê. Milhares de protestos. Queriam que ela se desculpasse pela "heresia", mas René não recuou. "Um artista não precisa pedir desculpas por se expressar artisticamente."René só estreou em disco aos 40 anos, em 1995, quando já estava com os filhos na faculdade e eles mesmos descobriram que a mãe era excepcional cantora disfarçada de dona de casa.Outro grupo que vai espantar os amantes do soul é o duo Tok Tok Tok. Formado na Alemanha, junta a cantora Tokunbo Akinro, de origem nigeriana, e o saxofonista alemão Morten Klein. Exploram uma região ali entre o som de Stevie Wonder e Erikah Badu e Jimmy Smith e Marvin Gaye. ServiçoHOJE - 21 h, Robert Glasper Trio, Miles Davis Kind of Blue @ 50 - Jimmy Cobb?s So What BandAMANHÃ - 21 h, René Marie Quartet & Jeremy Pelt, Miles Davis Kind of Blue @ 50 -Jimmy Cobb?s So What BandSÁBADO - 21 h. Tok Tok Tok Soul Band (Tokunbo Akinro & Morten Klein) e Bettye LaVette QuintetLocal: Citibank Hall(Alameda dos Jamaris, 213 - Moema - São Paulo)Funcionamento da bilheteria: 2.ª a domingo, das 12 h às 20 hwww.bridgestonemusic.com.br Ingressos esgotados para hoje e amanhã (ainda há para sábado) Site: www.ticketmaster.com.brTels. 11 2846-6000 (São Paulo) e 0300 789-6846 (outros Estados) Pontos de venda em São Paulo, Rio de Janeio, Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal: www.ticketmaster.com.br/shwPDV.cfmPreçosCamarote - R$ 100,00Setor Vip - R$ 80,00Setor 1 - R$ 60,00Setor 2 - R$ 50,00Setor 3 - R$ 40,00

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