Concisão e precisão, contra dogmas e privilégios

Abraham Lincoln, que nasceu no mesmo dia, era menos recluso, mas, como Darwin, mudou o mundo

, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Juntar Darwin e Lincoln no mesmo livro só porque ambos nasceram no mesmo dia, 12 de fevereiro de 1809? Adam Gopnik, jornalista e ensaísta da revista The New Yorker, não tem uma justificativa modesta para sua iniciativa: "Há 50 anos ninguém teria escolhido Darwin e Lincoln como figuras centrais da imaginação moderna. Freud e Marx talvez tivessem sido as mentes que víamos como príncipes da nossa desordem." Freud e Marx são muito contestados, porém, e "Lincoln e Darwin nunca estiveram mais presentes". Defensores do pensamento livre, burgueses apegados às famílias, suas ideias que então soaram radicais e sua desconfiança de grandes sistemas hoje se encontram em muitas partes.Antes de Lincoln, diz Gopnik em seu Angels and Ages - A Short Book about Darwin, Lincoln, and Modern Life (Knopf), a política era feita de acordo com um regime hierárquico, de privilégios herdados; e antes de Darwin a natureza também tinha uma classificação vertical em espécies e raças. Ambos eram diferentes em muitos aspectos: o americano era político, ambicioso, eloquente; o inglês era recluso, metódico, prudente. Mas as semelhanças são maiores. Céticos e apaixonados ao mesmo tempo, eles mudaram as visões de mundo e, com isso, o próprio mundo. Escreviam muito bem, com concisão e precisão que divergiam de séculos de pompa e retórica, e conseguiram enfrentar dogmas vigentes sem erguer novos dogmas. Passaram por sofrimentos pessoais, mas tinham tal convicção de suas ideias que soavam arrogantes para os adversários.O título remete à frase que teria sido dita na hora da morte de Lincoln, "Now he belongs to the ages" ou "to the angels". Se Lincoln - tema também, claro, de muitos ensaios e biografias em lançamento nos EUA - passou a pertencer à história ou aos anjos, não fica claro, mas não resta dúvida de que ele, como Darwin, apontou para um ser humano que confia em suas faculdades ao mesmo tempo que respeita o que desconhece. Não fomos criados à imagem e semelhança de uma divindade, mas também não somos meros primatas ou massa de manobra: somos cidadãos pensantes, que podemos reagir aos fatos e influenciar nosso futuro. Gopnik vê na dupla a união de materialismo e humanismo.Muito bem escrito, apesar do excesso de jogos de palavra, o livro de Gopnik não aborda questões científicas e nem mesmo controvérsias como o modo americano de impor sua democracia ao mundo. Mas é lúcido, como ao deixar claro que Darwin é uma figura histórica maior do que Lincoln, e tem muitos achados, como a comparação do estilo de Darwin com romancistas vitorianos como George Eliot e Anthony Trollope e a observação de que Lincoln, em Gettysburg, não pediu sacrifício em nome de Deus e sim da liberdade. Se há mais pluralismo e tolerância no mundo atual, devemos muito a esses dois heróis.

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