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Computador cria um Rembrandt perfeito

Obra-prima artificial pode até iludir alguns observadores, mas não guarda a alma do mestre e leva a refletir sobre autenticidade e originalidade

Sheila Leirner, Especial para O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2016 | 03h00

PARIS - E se o melhor falsário de Rembrandt (1606-1669) fosse um computador? Mais de três séculos depois do falecimento do grande pintor holandês, um programa informático teria sido o primeiro a realizar a proeza de criar uma nova obra: O Próximo Rembrandt. Revelada há alguns dias, em Amsterdã, a tela pode iludir os observadores menos atentos. É primorosa em cada pormenor, porém não encerra a alma do artista.

Esta obra-prima artificial é o fruto do trabalho de uma equipe de historiadores, programadores e analistas, saídos da Microsoft, do banco ING, da universidade de Delft e de dois museus neerlandeses. O especialista da firma americana nascida no Vale do Silício (e que hoje está em Redmond), explicou a metodologia: "Utilizamos a informática para analisar dados, como Rembrandt usava lápis e pincéis para criar algo de novo".

A experiência durou 1 ano e meio e começou pela constituição de uma base de dados exclusiva: mais de 300 obras do mestre passaram pelo crivo de um escâner 3D hipersofisticado. A partir destes parâmetros, um algoritmo reteve as principais características das pinturas. "Para ser o mais fiel à 'pata' do mestre, o programa calculou que era preciso fazer o retrato de um homem branco, entre 30 e 40 anos, olhando para a direita, com uma certa pilosidade facial, roupas escuras, colarinho claro e um chapéu", disse o diretor técnico do projeto.

A análise minuciosa destes dados permitiu aos informáticos afinar o retrato-robô encontrando, de fato, traços específicos que fazem de um Rembrandt um outro Rembrandt. E se falsos verdadeiros mestres feitos por máquinas 3D, em 148 milhões de pixels, começassem a invadir o mercado?

No ano passado a Fujifilm belga não desenvolveu uma técnica de varredura por laser? Não fez uma impressão de alta resolução em 3D de 31 clones de Van Gogh? Tudo foi reproduzido à perfeição, até os empastamentos e as pesquenas rachaduras do verniz! A venda de nove dessas perfeitas cópias apócrifas, por 25 mil euros cada, remetem a 1985, quando dois peritos europeus questionaram, simultaneamente, a autenticidade de um Rembrandt e um Ticiano do acervo de museus de Berlim Ocidental e Munique. O assunto mereceu matéria no Caderno 2: os famosos Homem do Capacete Dourado e Retrato de Carlos Vum teriam sido pintados por desconhecidos, provavelmente da mesma época e do mesmo grupo a que pertenceram os grandes mestres.

Qual a real importância da assinatura para uma obra de arte? No visionário Verdades e Mentiras de Orson Welles, a catedral gótica de "autoria desconhecida" que aparece no final representa justamente a interrogação do cineasta diante do relato sobre Elmyr de Hory, o falsário. Inspirado no livro Fake!, cujo frontispício ele até reproduz como vinheta do filme, Welles pergunta: "há menos autenticidade na obra anônima ou falsificada, aquela que não possui assinatura, do que naquela que espelha os credos artísticos coletivos, a que se convencionou chamar de obra de mestre?"

Hoje, a própria produção contemporânea corrobora essa questão. Mais do que isso, faz prever um futuro no qual talvez importará pouco a originalidade da obra. A queda dos imperativos dentro da arte diminuem consideravelmente o nível de exigência da audiência, a ponto de ela eleger um novo mito "a cada quinze minutos", como adivinhou Warhol. O "estilo internacional", seja ele qual for (como o "ecológico" que vemos despontar em toda parte) continua a se autoalimentar. Estabelecem-se trocas e conexões por meio de publicações especializadas e exposições internacionais e forma-se um circuito onde a assinatura do artista só interessa ao mercado.

É possível que, no futuro, a linguagem artística não apenas deverá constituir um bem comum desfrutado por todos, como sobretudo poderá até mesmo perder a sua secular condição de "tabu". E, por final - legitimamente apócrifa -, ser empregada com a prerrogativa de pertencer ao repertório expressivo de cada um.

 

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