Como se preenche a Bienal do vazio

Proposta polêmica de deixar vago um pavilhão inteiro da próxima edição do evento começa a tomar cara já com a intervenção dos primeiros artistas

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2008 | 00h00

O indiano Sarnath Banerjee faz hoje suas malas e retorna a Nova Délhi depois de passar uma temporada de pouco mais de um mês como artista residente da 28ª Bienal de São Paulo, marcada para ocorrer entre 26 de outubro e 6 de dezembro. Instalado no Edifício Lutetia, na Praça do Patriarca, em pleno centro da cidade, Banerjee teve a oportunidade de reunir material para a realização de seu trabalho para esta atual edição do evento: ele vai apresentar histórias em quadrinhos baseadas na vida de moradores comuns da cidade e de três "celebridades locais", como diz - o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, o jornalista esportivo Juca Kfouri e a jornalista Erika Palomino."É a primeira vez que estou na América do Sul. Meu olhar não é europeu, mas de alguém que se identifica com o lugar, porque o Brasil e a Índia têm muito em comum", diz Banerjee. Em seu trabalho "mais jornalístico do que artístico", ele entrevistou diversos tipos de pessoas para depois construir histórias em quadrinhos sobre um detetive, um lutador de judô, um motoboy, um corretor imobiliário, um vendedor de livros usados, um marqueteiro político, um ativista pró-aborto, pessoas da equipe do Arquivo Wanda Svevo da Bienal de São Paulo e das três celebridades já citadas. Banerjee já realizou também esboços das HQs, que serão veiculadas no jornal da 28ª Bienal de São Paulo, publicação que será distribuída no Pavilhão durante o período da mostra. "É uma escolha política desmistificar a arte", diz Banerjee sobre sua "reportagem gráfica". Com esse trabalho, ele afirma estar "interessado numa mitologia contemporânea da cidade" e não nos clichês relacionados a São Paulo.O indiano faz parte do grupo de criadores estrangeiros que, desde julho, está no País a convite da 28ª Bienal de São Paulo para aqui desenvolver trabalhos especiais para a mostra: o espanhol Javier Peñafiel (que ficará até setembro); o mexicano Erick Beltrán (novembro); o colombiano Gabriel Sierra (novembro); e a dupla sueca Goldin + Senneby (fim de agosto). Eles estão abrigados no Edifício Lutetia graças a uma parceria com a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), proprietária do prédio da década de 20, projetado por Ramos de Azevedo. A 27ª Bienal, em 2006, havia realizado o mesmo tipo de programa de residências artísticas.A 28ª Bienal de São Paulo - Em Vivo Contato, com curadoria-geral de Ivo Mesquita e curadoria-adjunta de Ana Paula Cohen - ganhou um apelido que colou e já não pode mais ser removido, o de "Bienal do Vazio". Todo o segundo pavimento do Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, ficará totalmente vazio. Esta edição propõe uma ruptura, que, como dizem os curadores, vai centrar-se mais nas discussões e reflexões sobre o papel de uma bienal de arte, com seminários (um deles já ocorre desde junho, todas as quintas-feiras, às 19h30, no auditório do MAC-Ibirapuera - hoje falam ao público o escritor Bernardo Carvalho e a dupla de artistas Mauricio Dias e Walter Riedweg ) e uma programação variada e dinâmica de eventos multidisciplinares. Indo nesse sentido, é certo que as obras desta edição serão de um terreno mais conceitual e exigirão atenção redobrada e aprofundada dos visitantes.Beltrán está se dedicando ao projeto Mundo Explicado, espécie de enciclopédia em que os tópicos são feitos a partir de explicações de pessoas aleatórias sobre temas aleatórios. "Este trabalho sobre o crer e ter certeza parte da idéia de que todas as pessoas têm uma visão de mundo que vai se construindo dentro de uma rede de imprecisões e de mitologias em que confiamos cegamente", diz o artista. A enciclopédia já começou a ser feita e continuará durante a Bienal (dentro e fora do pavilhão). A exposição da obra ocorrerá simultaneamente ao processo de sua elaboração - uma gráfica vai ser montada no primeiro piso do pavilhão e as páginas da enciclopédia serão expostas no terceiro andar. Já Sierra está encarregado de criar as estruturas e o mobiliário utilizados para expor as obras dos artistas participantes da Bienal. "São estruturas que permitem ao público outras formas de se relacionar com os trabalhos expostos", diz o artista.MÃOS À OBRA NO PAVILHÃOEntre os 40 participantes da 28ª Bienal, há 22, além dos residentes estrangeiros, produzindo obras especiais tendo em vista o projeto curatorial. Dora Longo Bahia, por exemplo, está, literalmente, preenchendo os 5. 063 m² do piso do terceiro andar do prédio com um imenso trabalho de pintura.Desde o início da semana passada, ajudada por um grupo de jovens artistas, Dora dedica-se à tarefa árdua de realizar uma pintura como as de sua série Escalpos: serão aplicados no piso 6 mil módulos de 1 m x 1 m com quatro tipos de padrões inspirados na arquitetura islâmica. No dia em que o Estado esteve na Bienal, participavam da tarefa Bruno Palazzo, Amanda Mei, Mauro Giarda, Alexandre F. Cardoso, Gabriel Zimbardi, Fernando Mira, Fernando Bueno e Tiago Tebet. "É só tinta sobre o piso, não há suporte", diz Dora, que optou por criar uma monumental pintura em módulos que têm o vermelho sob o preto e o cinza. "Este é um prédio que tem uma personalidade e eu não acredito em nada neutro. Os vazios são sempre cheios", afirma Dora. Com essa intervenção sutil e poderosa, a artista propõe um jogo de maximização e de outra relação com a escala "a que estamos habituados". "É como uma terra de gigantes", diz. Tudo o que for instalado no terceiro pavimento ficará sobre esse trabalho.Além da pintura, Dora propôs um projeto de som, ainda não viabilizado. Ela quer realizar jam sessions em alguma rádio convidando artistas para tocar junto, entre eles, participantes da 28ª Bienal - seria uma obra atingir a cidade. E tem mais: os 20 artistas de seu grupo de estudo estão preparando, cada um, dois trabalhos para apresentarem na Bienal. Sobre um painel, a cada dia do evento, um artista apresenta sua obra e, no dia seguinte, outro criador sobrepõe a esse trabalho o seu. "A autoria vai se perder e se transformar em um jogo construtivo", afirma Palazzo.

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