Como pilotar um avião

Já pilotei um Boeing. Era um 747, inclusive, da Varig, conhecido no Brasil da época como Jumbo. Adoro a pronúncia brasileira dessa palavra. Pena que caiu em desuso.Foi no início dos anos 90. Decolamos, eu e o instrutor de vôo, claro, do aeroporto do Galeão. Entre os obstáculos a evitar havia o tráfego aéreo intenso, o Pão de Açúcar e a ponte Rio-Niterói.Numa decolagem padrão, o piloto não encontraria os três pela frente. Mas acabei me perdendo um pouco, saindo da rota. Você pode imaginar a tensão. Minhas mãos tremiam no manche. A aeronave era pesada, bem mais do que imaginara, difícil de manobrar. O coração disparou quando o instrutor comentou com calma irritante que estávamos em rota de colisão com outro avião, que iniciara o pouso por cima da Baía de Guanabara. Era preciso tomar medidas imediatas, disse. Olhei para o lado e virei o manche para a esquerda, com toda minha força muscular e de vontade. Evitamos o indizível. Saíamos do perigo e partimos, finalmente, pela noite, rumo a Nova York.Ufa. Poucas vezes senti um alívio tão completo. Foi um momento místico. A descarga de adrenalina ou dopamina ou outra substância semelhante me elevou a um patamar de bem-estar nunca antes atingido, nem depois, algo próximo ao nirvana, imagino. Fiquei orgulhoso com o próprio desempenho sob pressão. Desde meu primeiro filme de guerra, creio, ainda moleque, duvidava de como reagiria numa situação de perigo extremo. Até que me saí bem, pensei.Não é a primeira vez que conto essa história. Mas faz tanto tempo que me sinto no direito de relatar de novo esse momento de grande emoção na minha vida. Para evitar mal-entendidos, talvez seja importante lembrar que estava num simulador.Mas de verdade. Foi na escola de pilotagem da Varig no Rio. Fazia uma reportagem para uma revista de videogames. O simulador reproduzia com perfeição a cabine de pilotagem de um Jumbo. Era montado num emaranhado de suportes hidráulicos. Mexia-se para cima e para baixo e custava milhões de dólares. Na época, era considerado o melhor videogame do mundo. O instrutor era um gaúcho simpático e calmo, com sotaque carregado, que inspirava confiança.Lembrei-me dessa história na semana passada enquanto descia a Rua Cardeal Arcoverde de ônibus. Voltei a esse meio de transporte de uns tempos para cá motivado pelo trânsito de São Paulo. Tenho pouca paciência com os automóveis. O ônibus anda melhor, pelo menos nos trajetos que costumo percorrer. Não é preciso estacionar o veículo. Permite praticar, ainda, a leitura durante a viagem e andar um pouco, que é sempre bom.Mas venho observando algumas deficiências nesse meio de transporte, como não podia deixar de ser. A maior delas, a meu ver, está no estilo de condução de boa parte dos motoristas. Agressivo e abrupto, eles tendem a jogar os passageiros de um lado para o outro, para frente e para trás, tornando a viagem tensa e desconfortável e dificultando a leitura. Em alguns momentos é preciso segurar firme para não ser lançado no corredor ou sair voando pelo pára-brisa.Foi uma viagem de ônibus particularmente chacoalhadora que me trouxe à mente a lição do meu instrutor de vôo, anos atrás. Depois de ter evitado um choque com outra aeronave, virei a cara para ele em busca de aprovação. Era o mínimo, convenhamos. Mas ele hesitou. Não agüentei e fui falando, entre tagarela e idiota, ''nossa, não foi demais essa?, quase, mas quase que batemos, nos salvamos por pouco''. Ao que o instrutor, depois de uma pausa, respondeu: ''Evitou a colisão, mas você derrubou tudo e todos lá atrás.'' Ou seja, minha manobra teria machucado muitos passageiros se fosse feita num vôo de verdade. Os motoristas de ônibus precisam de uma aula dessas.

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