Como o cinema até hoje retratou a Índia

Escritor indiano comenta o impacto da vitória retumbante do filme de Boyle

Shashi Tharoor, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

Filmes feitos por ocidentais sobre a Índia raramente são válidos, variando de um racismo ignorante (tendo como exemplo maior Steven Spielberg com seu Indiana Jones e o Templo da Perdição) até David Lean com o bem-intencionado, mas indutor Passagem para a Índia, com Alec Guinness com rosto moreno. Entretanto, a maioria dos indianos veem Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) como uma exceção.Exuberante, animado, espalhafatoso e arenoso, de uma maneira que somente pode ser definida como dickensiana, Quem Quer Ser um Milionário? apresenta a contemporânea Bombaim colocando o lado desagradável de sua vida em evidência, e o faz com brio, compaixão e excelência cinematográfica.Sendo um retrato da Índia, o filme - que está só agora entrando em cartaz no país, meses depois de ser um sucesso nas telas ocidentais - também provocou discórdia. Protestos foram feitos por moradores de favelas contra o título da produção: o termo "slumdog", cunhado por um roteirista, foi tomado como grande ofensa, demonstrou os cartazes dos protestantes. "Nós não somos cachorros." (Para o desânimo dos indianos liberais, um juiz aprovou uma petição contra os produtores do filme, mas é difícil acreditar que o caso siga até o fim).Outros, mais previsivelmente, censuraram o retrato doloroso e autêntico que o filme faz da pobreza e da vida nas favelas indianas. Quem Quer Ser um Milionário? foi filmado, em grande parte, com pequenas câmeras digitais de mão em locações em Dharavi, na maior favela de Bombaim (e da Ásia) e não omitiu os montes de lixos, fossas e drenas inundadas. Há até mesmo uma cena envolvendo excremento humano, o que é ao mesmo tempo revoltante e hilário.Mas isso não é um exercício de pornografia com a pobreza. A vida na favela está retratada com integridade e dignidade e com uma "joie de vivre" que transcende seu cenário. Outros protestaram contra o fato de o filme mostrar os indianos como coniventes, sem-princípios e cruéis, e que o único povo compassivo na história é um casal de turistas brancos que dá algum dinheiro para o protagonista. Isso pode revelar algo da visão de Boyle sobre a natureza humana, mas a maioria dos indianos sabe que eles vivem em uma terra amplamente devota a heróis maiores que a vida.Nós, indianos,temos aprendido a aceitar os seres humanos como o são, o que quer dizer, grosso modo, imperfeitos. E o herói do filme, feito por um ator adolescente anglo-indiano, Dev Pavel, com um olhar que combina intensidade e falta de expressividade, e até parece totalmente genuíno, é um protagonista sincero. O indiano Shashi Tharoor é escritor e foi secretário-geral das Nações Unidas

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