Como mudar o coração americano?

A chegada do Obama me faz lembrar com espanto da América que conheci no fim dos anos 50. Meu pai, da Aeronáutica, chefiou uma missão na Flórida, comprando aviões da 2ª Guerra para treinamento no Brasil e fomos morar na cidade de St. Augustine, a mais antiga do país, fundada por Ponce de Leon, um espanhol maluco que achou que descobrira ali a Fonte da Juventude.A cidade era igual àquela do Truman Show ou do Back to the Future. As ruas, pessoas, os comportamentos, tudo parecia programado por uma máquina social obsessiva. A vida era padronizada: abraços gritados, roupas iguais, torcidas histéricas no beisebol, finais felizes, alegrias obrigatórias, imensa fé no país. Tudo era um carrossel de certezas absolutas em direção a um futuro garantido.Só uma coisa estava fora da ordem: os negros. Era outra América dentro da cidade. No ônibus amarelo do colégio, eu via meus colegas louros, ruivos e brutos berrando contra os negros que passavam: "Hey, nigger, por que teu nariz é tão chato? Hey, nigger, por que teu cabelo é pixaim?" Os negros passavam, de cabeça baixa, o rosto torcido de humilhação, num ódio sufocado e inútil. Amontoavam-se no fundo dos ônibus, em pé, mesmo com os carros vazios, e moravam num bairro de madeira e terra, perto do porto onde os barcos de camarão fediam. Aquela injustiça me espantava pela ausência de compaixão, eu que vinha de babás negras me beijando, eu que amava as mulatas cariocas que já povoavam meus sonhos de 15 anos. Os negros eram moldados pelo sofrimento e exclusão, disformes, obesos deprimidos, frágeis mulheres engelhadas, todos trêmulos e esfarrapados. Na época da "integração racial", esses negros foram espancados pela ousadia de se banhar em piscinas públicas, onde os brancos jogavam ácido para queimá-los. Obama é uma grande mudança, mas, penso, o que fazer com as raízes fundas da ignorância e da paranoia? Eu tinha medo era dos brancos. Eu era um nerd comprido e meio bobo e me chocava com as botas de caubóis marchetadas de estrelas de prata, as facas de mola de onde a lâmina pulava, os casacos de couro que vestiam a chamada "juventude transviada", a rebeldia reacionária e "republicana" dos anos de Eisenhower. Vi brigas de ferozes galalaus se arrebentando até o sangue no focinho e o desmaio - o sagrado ritual da cultura da porrada dos caubóis.Elvis Presley rebolava na TV e James Dean, morto, ainda estava presente nos gestos e roupas. Havia intolerância entre os próprios brancos: eram os fortes contra os fracos, as meninas bonitas contra as feias, as sérias contra as "galinhas". As rivalidades eram vingativas e duras. As "galinhas" eram comidas e desprezadas nos drive-ins, dentro dos carros envenenados e depois cuspidas para a humilhação coletiva.Eu, turista tropical, era um tipo misterioso: tímido, fraco, não era muito "legível" para eles. Mas, os machões me poupavam pela habilidade que eu tinha de dar-lhes "cola" em "spelling", soletrando palavras de raiz latina que, para eles, eram enigmas.Não havia espaço para dúvidas naquela cidade, mas eu sentia que aquela solidez de certezas, se rompida, provocaria um desastre. Bem ou mal, eu navegava naquela cultura obsessiva, e consegui namorar Melinda Mills, loura pálida filha de um ex-marine que tinha estado no Rio muitos anos antes e que me mostrou um cartão-postal do Mangue, onde ele, certamente, conhecera a Zona e as polacas.Melinda era também frágil e boba, com beijos molhados no cinema onde assistimos a An Affair to Remember.CHOQUE E MEDOAté que, um dia, chegou a notícia terrível. Tinha subido aos céus o satélite russo, o Sputnik, girando como uma bola de basquete em órbita da Terra. O pânico foi indescritível. Desde 49, quando a Guerra Fria começou, com a explosão da bomba H soviética, superando a liderança dos destruidores de Hiroshima, os americanos esperavam outra catástrofe; era visível.Em minutos, a cidade parecia um campo de refugiados, de perdedores, com cabeças inchadas, humilhados pelos comunistas invasores. No colégio, começaram fire drills incessantes, alarmes evacuando os alunos para porões e abrigos antiatômicos. O então senador Lyndon Johnson berrou: "Brevemente estarão jogando bombas atômicas sobre nós, como pedras caindo do céu..."No alto, o satélite Sputnik humilhava os americanos, com seus "bip bips" - ameaçadoras gargalhadas do espaço. A partir desse dia, lá embaixo, na cidadezinha da Flórida, eu mudei. Não para mim, mas para os outros.Os colegas porradeiros me investigaram com perguntas: "Que você acha? Teu país gosta dos russos?"Eu tremia e escondia minha vaga admiração juvenil pelo socialismo. Eles me olhavam desconfiados: brasileiro, latino, sabe-se lá? Depois disso, não me pediam mais cola de palavras, mal me olhavam. O pai de Melinda, putanheiro do Mangue, mal me cumprimentou de sua poltrona esfiapada. Melinda ficou mais pálida e nosso namoro definhou.Nesses dias eu vi o "choque e pavor" da América profunda, um prenúncio do horror de 2001, que Bush e sua gangue estimularam para transformar o mundo numa aldeia evangélica reprimida.Em um de seus discursos, Obama disse que os americanos precisavam se "reeducar" em relação ao resto do mundo. Outro dia, li a mesma coisa em um livro extraordinário: The Limits of Power, de Andrew Bacevich, texto que pauta intelectuais hoje nos USA, incluindo o Obama. Andrew nos mostra que há uma estrutura psicossocial quase "genética" que tem de ser reformada no país, para que alguma mudança real se faça, para além da euforia da esperança. Ele nos mostra que a ideia de sacrificar-se pelo conjunto, de se contentar com pouco, de consumir menos é impenetrável nos corações americanos. Se Obama não conseguir, a estupidez e ignorância voltarão com o "totalitarismo da maioria". E, aí, a barra pesará.

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