Como instalar seu home theater

Assisti na abertura do festival de cinema Anima Mundi, em São Paulo, a um desenho do Pateta, na semana passada. Dei boas risadas. Fui ao evento sem saber o que esperar, convidado por uma das empresas patrocinadoras. Não entendo nada do assunto. Por via das dúvidas, levei meu amigo, colega de trabalho e assessor na área de novas mídias, Roberto Sakai. Ele gostou de ganhar o convite, acredito. Roberto vai ao evento todos os anos, ou quase. Acompanha o setor. Leu os gibis e conhece tudo da Pixar.Passaram uns sete ou oito filmes na noite da abertura. Havia personagens em três dimensões, estéticas asiáticas, coisas européias, ambientalismo e selva, mas a surpresa, ao menos para mim, ficou por conta de um desenho animado do Pateta, ou Goofy, como é chamado em inglês. É aquele cachorro do Mickey Mouse. A obra, de uns seis minutos de duração, chama-se Como Instalar Seu Home Theater. Narra as dificuldades do Pateta, que trabalha contra o relógio para montar o equipamento recém-adquirido a tempo de ver um jogo de futebol americano. É preciso plugar as caixas de som, conectar o DVD na tela gigante da televisão, aquelas coisas.Dá tudo errado. Uma voz em off acompanha as desventuras do nosso cachorro, lendo o manual de instruções. Até aí, nada demais. A surpresa está na forma. Parece um desenho animado dos anos 40 ou 50. É igualzinho aos cartuns, do Pateta mesmo, que assistia na televisão, ainda criança, nos Estados Unidos, durante a década de 1960. Não fosse o home theater e os controles remotos, jamais suspeitaria que não era mesmo um desenho dos primeiros tempos da televisão.Roberto já sabia de tudo isso, claro. Tinha lido a respeito, talvez visto, até, no YouTube. Explicou, depois, que uma parte foi feita em computadores e outra com lápis e papel, à maneira dos desenhos antigos. Tudo com o intuito de reproduzir com a maior fidelidade possível o jeitão das obras da década de 1940. Como eu não sabia de nada, o efeito foi forte. Fui transportado, sem nenhum aviso, para um estado emocional próximo da minha infância. É uma delícia.No táxi, voltando para casa pela luz tênue de uma Avenida Sumaré vazia, fui ficando filosófico. Bateu uma nostalgia dos Estados Unidos da década de 1960, dos primeiros tempos da TV.Assisto aos desenhos animados mais recentes com meu filho caçula, Samuel, de 5 anos - que está em férias, no interior, faz algumas semanas. Gosto de Backyardigans e até mesmo de Ben 10. Você já deve ter visto, pelo menos o primeiro, ao zapear pelos canais da televisão. São uns bonequinhos coloridos que brincam de aventuras no quintal. Mas não há nada como os desenhos antigos, refleti, saudoso, antes de me lembrar de uma frase do comentarista de esportes PVC (Paulo Vinícius Coelho), da qual gosto bastante. Diz ele aos torcedores resmungões: ''O futebol de hoje não é pior, você é que ficou velho.'' O mesmo deve valer para o rock''n''roll e a literatura. Desde que ouvi essa frase do PVC, não consigo mais me entregar ao saudosismo.Pensei nisso enquanto buscava o controle remoto, já em casa, sozinho. Zapeava pelos canais da TV a cabo. Num deles passava Tom and Jerry, desenho animado clássico, contemporâneo do Pateta. Este, lembrei, é o verdadeiro favorito do Samuel. Ele é capaz de assistir a Tom e Jerry e Pica-Pau e também Pateta horas a fio, rindo sem parar. É por isso que são chamados de clássicos, concluí. Devem ficar ainda melhores num home theater.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.