Com Zé do Caixão, vivos assombram os mortos no cemitério

Alter ego de José Mojica Marins convidou público para passear entre túmulos do Cachoeirinha e a assistir a filmes mórbidos

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

04 de maio de 2009 | 00h00

Em um teatro com 140 cadeiras, cerca de 200 pessoas se amontoavam na noite de sábado no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, na Vila Nova Cachoeirinha, à espera da atração mais lado B da Virada Cultural: o cineasta José Mojica Marins - ou melhor, seu alter ego, Zé do Caixão. Com meia hora de atraso, ele chegou ovacionado pela plateia: "Podem me fazer três perguntas, sobre o que quiserem. Comunicação, almas penadas, extraterrestres...", disse, engolindo os "esses" como lhe é habitual, para o delírio dos fãs.Ali, no centro do cenário montado com luz avermelhada, muitas velas e uma cadeira - que Zé não usou -, o personagem trash dialogou com o público por cerca de 20 minutos. "O tempo está curto e logo mais nós estaremos no cemitério", apressou a todos.Não, ele não estava profetizando a morte coletiva. O evento previa mesmo uma caminhada para logo ao lado, a pouco mais de 100 metros dali. À meia-noite, começaria uma mórbida sessão de cinema em frente do Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, onde um telão já estava montado. De cigarro na boca, Zé do Caixão liderou a estranha procissão. Quando atravessava a rua com seus seguidores, um ônibus da linha 9653 teve de parar e aguardar. Os passageiros, visivelmente cansados, estamparam um sorriso ao perceberem a razão da muvuca: "Vai, Zé do Caixão!", alguns gritaram. Zé continuou andando. Ao chegarem ao espaço montado para o "cinetério", o cinema do cemitério, seus seguidores se juntaram a um grupo mais ou menos do mesmo tamanho que já os aguardava ali. "O cemitério é um lugar legal, onde ninguém fala mal de ninguém", soltou Zé do Caixão.ENTES QUERIDOSAo menos por uma madrugada, ao que tudo indicava, seria a vez de os vivos assombrarem os mortos da Vila Nova Cachoeirinha. Já de microfone na mão, a estrela da noite ensinou os presentes a "rever" um ente querido já falecido. "Não se trata de nada sobrenatural, é realmente a força do seu pensamento que quer ver a pessoa", explicou. "Ela vem e você mata a saudade, conversa com ela, que não vai responder."Exaltou o cinema nacional em contraposição ao dos Estados Unidos: "Os americanos ficam doidos pela nossa macumba, nossas mulheres, as mulheres mais lindas do mundo." Em seguida, atendendo a clamores, rogou uma de suas indefectíveis pragas.Estava oficialmente aberta a seção de cinema. Na projeção, O Massacre da Serra Elétrica (originalmente The Texas Chain Saw Massacre), rodado em 1973 pelo diretor Tobe Hooper e distribuído no ano seguinte. Mas quem imaginava que os seguidores de Zé do Caixão iriam se contentar com o filme? Ficaram ali praticamente só os que já aguardavam o início da exibição. Os que vieram do Centro Cultural continuaram caminhando atrás de Zé. Alguns pediam para tirar uma foto, outros se conformavam apenas em segui-lo e observá-lo. De volta ao Centro Cultural, uma fila foi organizada para que todos tivessem seus segundos ao lado do ídolo-trash, eternizando o momento com uma fotografia.A balada em frente do Cemitério Vila Nova Cachoeirinha se arrastava madrugada adentro. Após o filme, o público pôde conferir um show de Rogério Skylab, compositor, autor de letras de gosto duvidoso, cujo hit Motosserra vinha bem a calhar com o espírito da noite: "Serrei suas duas pernas, os seus dois bracinhos/ Você ficou sendo a Vênus de Milo do meu jardim/ Te serrei por dentro e fora, te serrei no meio/ Restou um toquinho que eu serrei também/ Serei feliz."Em sua playlist estavam ainda No Cemitério: "Encontrei meu grande amor/No cemitério/Te ergui da sepultura"; Funérea: "Minha casa é um cemitério/O meu pai um morto-vivo/Minha mãe é uma caveira/Minha avó/É uma bruxa", e IML: "Abri a geladeira do IML/Cadáver com bunda, com HIV/Cadáver cantando, cadáver é assim."

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