''Com os Dardennes, não se teme o ridículo''

Atriz fala da segurança de atuar para os premiados irmãos cineastas

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

06 de novembro de 2008 | 00h00

Tudo começou com um anúncio que os irmãos Dardenne publicaram em jornais de Liège, onde moram, e também de Bruxelas, Sarajevo e Pristina. Os termos eram os mais simples e objetivos possíveis - "Procura-se mulher jovem, 25/30 anos, que fale albanês." Foi assim que Jean-Pierre e Luc Dardenne chegaram a Arta Dobroshi, atriz de O Silêncio de Lorna, que estréia hoje na cidade, após vencer o prêmio de roteiro no Festival de Cannes, em maio, e após ter sido exibido na recente Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Muitos críticos saíram em êxtase da sessão de imprensa de Lorna em Cannes, antecipando que os Dardenne poderiam ganhar sua terceira Palma de Ouro, após Rosetta, em 1999, e A Criança, em 2005. Mas não foi uma reação unânime. A maioria da crítica, com razão, viu nas melhores qualidades do filme uma repetição do método da dupla de diretores, agravada, desta vez, por problemas justamente de roteiro.Há dois anos, também em Cannes, Jean-Pierre e Luc já falavam em Lorna como ?une sorte de polar?, uma espécie de policial, e diziam que a grande inovação de seu filme seria uma morte, que não seria mostrada, mas que levaria a uma inversão na narrativa. O efeito dividiu a crítica e se, no quadro de cotações do festival, os Dardennes ganharam suas Palmas habituais - a cotação máxima -, também ganharam uma estrelinha miserável. Uma coisa é certa - a unanimidade que Lorna não teve, do ponto de vista da direção, foi toda para o trabalho da atriz, Arta Dobroshi, uma albanesa de Kosovo, que morava em Sarajevo. Arta foi testada e escolhida entre 300 candidatas ao papel da imigrante que aceita um casamento branco na Bélgica e se envolve no plano de assassinato do marido para que, de posse da cidadania outorgada pelo casamento, possa se casar com outro albanês que também quer se estabelecer na Bélgica.Embora trabalhem com profissionais - e tenham lançado atores como Jérome Rénier e Émilie Duquenne -, os Dardennes trabalham muito com desconhecidos, e eles próprios se explicam dizendo que suas histórias, na maioria das vezes, tratam de jovens entre 14 e 17 anos. Para interpretar jovens que estão se iniciando na vida, nada melhor do que atores que também estão se iniciando na carreira. No caso de Arta, eles chegaram a duvidar que conseguiriam dirigir a atriz. Afinal, nunca haviam dirigido uma mulher estreante, somente garotas, que são maleáveis. Temiam que houvesse uma disputa entre eles. Deu tudo certo.Uma das coisas mais interessantes do método dos Dardennes, Arta explicava em Cannes, é que eles não pagam muito - e por isso também privilegiam os principiantes - porque o dinheiro tem de ir principalmente para o filme. "Eles alugam cenários, eventualmente estúdios e deixam a equipe à disposição, desde antes de filmar até sair a primeira cópia, para o caso de ter de refilmar alguma cena. Isso termina por encarecer os filmes deles." Arta foi pré-selecionada por um colaborador dos Dardennes em Sarajevo. Ela não sabia, mas entre as centenas de candidatas, os irmãos diretores haviam tombado simultanemente sobre ela. "Eles foram me visitar e me fizeram um pequeno teste. Alguma coisa com poucas palavras, mais para avaliar a minha capacidade de expressão corporal. Não me disseram nada, se haviam gostado ou não. Mais tarde, me confessaram que, se não tivesse dado certo comigo, eles teriam parado com a produção para procurar uma atriz na Rússia ou na Ucrânia."O processo de preparação prosseguiu na Bélgica, em Liège, onde Arta aprendeu a falar francês. Os Dardennes também a fizeram circular por esse meio de imigrantes albaneses, muitos clandestinos, para que ela sentisse a atmosfera. ?E eles me diziam que não tivesse medo de parecer ridícula, porque eles também poderiam ser ridículos aos meus olhos. Era uma questão de entrega mútua." O grande desafio era a cena da gravidez, fictícia ou imaginária, quando Lorna se isola e dialoga com o filho - sempre o filho, a criança, no cinema dos Dardennes. "Eles me depositaram toda a sua confiança. Espero ter correspondido a deles", ela diz.

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