Com o destino conjugado no passado

Em O Futuro da América, Simon Schama diz que Obama segue doutrina de Thomas Jefferson, mas enfrenta tradição bélica

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Embora pareça uma daquelas irresistíveis placas de vidente que prometem revelar o destino a crédulos clientes, O Futuro da América (tradução de Carlos Eduardo Lins da Silva, Donaldson M. Garschagen e Rosaura Eichenberg), do historiador de origem inglesa Simon Schama, pode decepcionar os que esperam descobrir no livro o devir americano. Afinal, trata-se apenas de um ensaio histórico com associações idiossincráticas. Schama fez sua primeira viagem aos Estados Unidos em 1964. Conhece o país tanto quanto a obra de Rembrandt ou a obscura natureza de Robespierre, dois temas que também lhe são caros. Schama, que conversou com a reportagem do Estado sobre seu novo livro, é um obamista de primeira hora, que jamais escondeu sua simpatia pelo presidente Barack Obama, promotor, segundo ele, do reencontro da democracia americana com a moralidade.Historiadores mais cautelosos poderão considerar esse diagnóstico excessivamente prematuro e o uso da palavra moralidade um tanto fora de propósito numa nação que já teve presidentes contraditórios como Thomas Jefferson - ao mesmo tempo avesso à escravidão e defensor da inferioridade racial dos negros. Jefferson considerava o tráfico de escravos uma depravação moral. Muitos republicanos e democratas também, mas mantêm imigrantes ilegais atrás do fogão, pagando a eles míseros salários. Após a morte de Jefferson, os americanos tiveram de esperar 40 anos para ver a escravidão acabar - mesmo assim, ao custo do banho de sangue promovido pela Guerra Civil. Talvez tenham de esperar outros 40 para ver o futuro que Schama já vê hoje. "Obama é a retomada de democracia americana, eleito pelas minorias, e tem um programa consistente para a aliviar a crise econômica, especialmente no campo da saúde", diz ele, defendendo a ideia de que os EUA conseguirão manter a hegemonia política e econômica que conquistaram.Schama associa passado e futuro como se fossem um único tempo, no melhor estilo do físico Stephen Hawking. Na última palestra que fez no Brasil, em 2008, relacionou a Guernica de Picasso ao ataque às torres gêmeas, além de ver nas telas calcinadas do alemão Kiefer um aviso do apocalipse bíblico. Sua crença no artista visionário é imensa. No historiador como profeta, maior ainda. Schama tem vocação para babalaô da história. "É interessante essa sua observação, de que escrevo história política com os mesmos métodos que uso para contar a história da arte, porque é exatamente o que faço", admite ele, revelando que sempre parte de uma imagem-guia - no caso de O Futuro da América, o cemitério de Arlimngton - para escrever seus textos. O historiador, aliás, faz livros associados a séries de televisão - e ganha bem por isso, algo em torno de 3 milhões de libras por trabalho. O Futuro da América não é diferente. É a terceira experiência na área do catedrático.Numa época em que privado e público se confundem, Schama decifrou a pedra de Roseta da nova historiografia: cruzou a história geral americana com a particular - a da família Meigs, tradicionalmente ligada à academia militar de West Point, da qual saíram presidentes (Eisenhower) e "heróis" americanos (Patton, entre eles). A primeira parte de O Futuro da América (um terço do livro) é quase que integralmente dedicada a investigar como a história do militarismo americano foi marcada pelo sobrenome Meigs, que ajudou a trocar o idealismo jeffersoniano pelo pragmatismo hamiltoniano de West Point, sedimentando o espírito bélico americano - embora Schama, um apaixonado pelos EUA, insista em dizer que a cultura americana não é guerreira. A esse propósito, vale lembrar a frase preferida de Patton: "Deus me perdoe, mas eu amo a guerra." A família Meigs, proprietária de escravos e construtora do Capitólio de Washington, poderia dizer o mesmo, a crer nos relatos de outros historiadores e biógrafos. "Não a escolhi por capricho, mas por ser uma dinastia que acompanha a história da América desde a Guerra Civil", justifica Schama.Seu drama histórico, familiar, assim, é vendido como a história dos EUA, preparada para o formato de uma série de TV. Após investigar a origem da dicotômica filosofia americana - a América racional de Jefferson amalgamada às baionetas de Alexander Hamilton -, Schama afirma, na segunda parte de seu livro, que o futuro luminoso da América anunciado por Obama é apenas o passado americano. Ele vê nos eleitores do presidente a "negrona do Delta, filha de pastor", cantando um hino ensurdecedor. Barack foi eleito no interior da igrejas, defende Schama, e a igreja cristã foi a instituição progressista que determinou sua vitória. É difícil ver qualquer instituição religiosa digna desse adjetivo - a Igreja é e sempre foi essencialmente reacionária, ou não resistiria aos avanços da história.Schama discorda. Considera que os estrangeiros têm uma visão errada da Igreja cristã americana como um braço forte da ultradireita - mais ligada aos televangelistas, e não à igreja evangélica do passado, testemunha do processo embrionário dos movimentos pelos direitos civis. "Obama não foi eleito por sua cor de pele, mas por defender as minorias, confrontar os fundamentalistas e não fugir de discussões polêmicas como o aborto", argumenta.E como Obama pretende resgatar a reputação dos EUA após a intervenção no Iraque e episódios como o da prisão de Abu Ghraib e denúncias de tortura em Guantánamo? "Ele tem boa vontade e compromisso com a abertura, é muito sensível a respeito de problemas como esse, mas não pode admitir os fundamentalistas do Taleban, que negam voz às mulheres e perseguem as minorias." Obama e Michelle, lembra, são originários de uma classe social trabalhadora e cresceram graças à educação. Não vão abrir mão dela para fazer acordos espúrios com quem defende a ignorância. Otimista incurável, Schama espera ainda que os bilionários americanos do petróleo sigam todos o exemplo de T. Boone Pickens e se tornem "verdes" defensores da ecologia e dos moinhos de vento. Do jeito que são, é mais provável que fiquem, sim, verdes de raiva.

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