Com Canudos, um novo rumo para o autor

Com um par de artigos de mesmo título, este e o seguinte, Euclides ousa dar um passo que decidirá seu destino: ao opinar sobre a guerra de Canudos, definiria os rumos de sua vida e de sua carreira. Homem complexo, de espírito aventuresco, com vocação para desbravador, abrigava anseios de amplidão. É o que demonstraria em vários lances, culminando quando, já famoso, insistiria em partir numa expedição de 18 meses ao Alto Purus, na Amazônia. Precocemente, manifestara em poemas juvenis o desejo de embrenhar-se pelos sertões. O título do artigo equipara Canudos à província que se sublevara em 1793 contra a Revolução Francesa, com base numa aliança católica entre camponeses e nobres. Feliz achado, seria repetido por todos e intitularia provisoriamente Os Sertões.Até então, ninguém prestara atenção às duas primeiras expedições, de âmbito estadual, que se passavam no remoto sertão da Bahia. Mas dez dias antes, a 4 de março, a 3ª Expedição contra Canudos, ao deslanchar sua investida contra o arraial, debanda e bate em retirada. As forças engajadas tinham vindo de todo o Brasil e eram comandadas pelo coronel Moreira César, que se ilustrara no combate à Revolução Federalista no Sul do País, onde ganhara o apelido de "Corta-pescoço". O pânico que se alastrou pela nação, explorado pelos políticos e pelos jornais, dava a entender que uma conspiração monarquista de âmbito internacional, visando à restauração do trono, tinha seu foco em Canudos. Motins de rua mobilizaram-se no Rio e em São Paulo. O clamor pelo extermínio dos canudenses tornou-se geral.Euclides achava-se abalizado a opinar, já que tinha analisado campanhas bélicas na Escola Militar. Abalança-se aqui a examinar a natureza do sertão, pois lhe parece um adversário pior que os conselheiristas. Evoca o solo pedregoso e estéril, o relevo e o calor ambiente, a seca endêmica na região, a vegetação mirrada da caatinga. O vezo estilístico da representação de uma natureza inóspita já adquire o teor dramático que dará a nota em Os Sertões. A exemplo de todos, não manifesta a menor simpatia pelos canudenses. Ao contrário, chama-os de "horda dos fanatizados sequazes de Antonio Conselheiro", postura que se desdobrará no artigo seguinte.

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