Com a perna no mundo

Grupos brasileiros buscam parceiros fora do País para realizar projetos na área de cinema, teatro e circo com resultados animadores não apenas no campo artístico

Paula Chagas Autran, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2008 | 00h00

A vida é a arte do encontro, dizia Vinicius de Moraes. Pensando nisso, muitos grupos brasileiros, seguindo o conselho do poeta, buscam um contato maior com artistas fora do País. Muito além de ''turismo cultural'', eles vêem nessa aproximação possibilidades de aprendizado e reciclagem. A trupe de palhaços do Jogando no Quintal, por exemplo, resolveu há dois anos procurar novos parceiros. ''Temos uma formação boa na arte do palhaço, mas sentíamos falta de um embasamento maior na arte da improvisação'', diz César Gouvêa, o palhaço Cizar Parker, um dos fundadores do grupo, hoje com cinco anos, 12 integrantes e um dos raros no mundo que une as duas linguagens. ''No Brasil, a improvisação é utilizada como meio para se chegar a um espetáculo, mas pouco usada no palco, na hora da ação'', ressalta Márcio Ballas , o palhaço João Grandão, outro fundador da companhia.A trupe descobriu um mestre nessa arte perto daqui, o argentino Ricardo Behrens, diretor do grupo LPI, e convidaram-no para ministrar um workshop. ''Percebemos que nossos erros eram sempre os mesmos e que não tínhamos instrumental para melhorar naqueles pontos'', explica a integrante Rhena de Faria, a palhaça Mademoiselle Blanche. No final de 2006, a trupe realizou o primeiro festival Jogando no Quintal de Improvisação - Edição Latino-Americana, com grupos da Argentina e da Colômbia. Para estreitar ainda mais os laços artísticos, a trupe entrou no palco com seus convidados.No ano seguinte, o festival foi ampliado. Passou de latino-americano a internacional e contou com mais dois países, Equador e Espanha. Em seguida, a trupe foi convidada para mostrar seus espetáculos na Colômbia e Argentina. E a relação não pára por aí. Neste momento participam do 11º Festival Ibero-Americano de Teatro de Bogotá, que termina na quarta.Originalidade é uma das principais características do trabalho desenvolvido pelo diretor e produtor carioca Frederico Reder, que há quatro anos leva sua trupe circense para fazer espetáculos em um dos países menos freqüentados por turistas do mundo: a Arábia Saudita. ''No país só é dado visto para turismo religioso'', explica. ''É quase impossível entrar lá sem ser muçulmano'', lembra Reder. E o produtor não só entra no país como leva mais de 30 artistas circenses com ele ao parque Jungle Land, que foi inspirado na Disney e tem atrações variadas. O circo comandado por Reder funciona três meses por ano. Apesar da distância, há algo de familiar na estrutura do circo onde Reder faz seu espetáculo. ''O empresário que montou o parque veio ao Brasil, comprou a estrutura do circo Garcia, que fechou há alguns anos, e a montou lá'', conta.O parque foi montado na cidade de Jedá, em meio ao deserto saudita. E por lá os termômetros chegam a marcar até 46 graus. ''Por conta do calor, as apresentações são sempre feitas à noite'', conta o produtor. E a população local, pouco habituada a espetáculos circenses, lota todas as noites os mais de três mil lugares do circo. A trupe teve também de assimilar os costumes locais para não ferir as rígidas regras de convivência local. ''As mulheres vêm ao circo, mas não podemos dirigir a palavra a elas'', conta. ''Mas até hoje pudemos fazer nosso trabalho em paz'', observa. Reder prepara-se para viver em junho mais uma aventura na Arábia.Foi pensando nessa troca cultural que a companhia de teatro infantil Prosa dos Ventos resolveu ir até Portugal. Acostumados a correr atrás de patrocínio para suas produções, pensaram: Por que não fazer o mesmo lá? ''Estávamos a passeio em Portugal'', conta a atriz Helena Morais, integrante da cia., dirigida por Fabio Torres. ''Mas a cabeça de quem produz não pára nunca. Comecei a pesquisar como fazer para levar espetáculos para lá''. Assim, Helena descobriu que em cada cidade há uma câmara de cultura. ''Com o nome dos vereadores responsáveis por cada distrito, mandei os projetos e conseguimos vender espetáculos para 14 cidades''. A cia. já realizou essa façanha em duas ocasiões diferentes, em 1999 e em 2006, com o apoio da Votorantim, que lhes cedeu as passagens. ''Na primeira vez, só apresentamos os espetáculos e viemos embora, mas, em 2006, tivemos uma vivência maior com a cultura do país e com grupos de lá.''Essa vivência resultou na participação em um movimento que ocorre na cidade de Évora. ''Lá, a câmara de cultura cedeu os galpões da zona portuária para as companhias de teatro'', conta. ''Nós nos apresentamos na sede do grupo Pé de Chumbo, o que muito nos auxiliou no aprofundamento da nossa pesquisa'', garante Helena. Esse grupo faz todo ano um festival internacional de danças folclóricas, produzindo um CD com as canções apresentadas. Essa realização inspirou a trupe brasileira, que desde sua origem, em 2001, promove pesquisa na área musical dentro do teatro. Em Portugal, Helena e o ator Élcio Rodrigues, membro da cia., mostraram a peça Ciranda das Flores, que é recheada de cantigas de roda, grande parte delas de origem portuguesa. O próximo passo da trupe será lançar um CD, até o fim do ano, tendo como convidados especiais os integrantes do Pé de Chumbo.Essa ponte entre países é feita há mais de uma década pela documentarista e produtora Paula Cosenza. Em 1997, ela foi fazer faculdade de cinema na Inglaterra. ''Lá iniciei um contato intenso com outros artistas, principalmente imigrantes como eu'', revela ela. Essa experiência foi parar nos trabalhos que realizava na faculdade. O primeiro curta-metragem produzido por Paula, La Santa, foi dirigido pela espanhola Arantzazu Bayon. O curta já participou de mais de 40 festivais ao redor do mundo, entre eles o de Berlim, faturando prêmios importantes.Assim nasceu o Madremedia - que conta também com a fotógrafa brasileira radicada em Londres Andrea Testoni e com a antropóloga e fotógrafa Joana Beneton, entre outras - coletivo de mulheres que trabalham com audiovisual. Outro traço em comum entre elas é que todas já moraram em diferentes países ao redor do mundo, falam pelo menos duas línguas fluentemente e colecionam prêmios em festivais internacionais. ''Cada uma de nós sempre faz parte do trabalho da outra'', garante. Dessa forma, já produziram filmes, documentários, mostras de fotografias, programas de televisão, como o recente Chegados, série sobre imigrantes que fizeram a história do Brasil, veiculado na TV Futura.Por morar em diferentes países, as integrantes fazem reuniões semanais com ajuda tecnológica como o skype. E os projetos seguem a todo vapor. No momento, Paula e Andrea realizam o documentário Yuba sobre uma comunidade japonesa do interior paulista. Além disso, Paula e Arantzazu estão a caminho de seu primeiro longa-metragem, co-parceria Brasil-Espanha.

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