Com a força do mar, o primeiro CD, aos 93 anos

De Santos, canções de Renato Borgomoni sobem a serra e são mostradas sexta e sábado em São Paulo

Rejane Lima, SANTOS, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2008 | 00h00

As canções de Renato Borgomoni agora podem ser apreciadas fora das rodas de samba da Baixada Santista. Aos 93 anos, completados no mês passado, o compositor que vive em Santos desde 1935 lança seu primeiro CD, Cavalo de Praia Canta Renato Borgomoni. O álbum tem 17 faixas interpretadas por vários músicos, entre eles seu filho Junior Borgomoni, bibliotecário por formação e cantor por herança genética. Com o álbum, a Guela Produções divulga o documentário Vou Vender Meu Samba, Renato Borgomoni, o primeiro da série Majestades Anônimas, lançado no ano passado. Um show com as canções do autor subirá a serra pela primeira vez na sexta (21h30) e sábado (21 h), no Teatro do Centro da Terra (Rua Piracuama, 19, Sumaré, tel. 3675-1595), com ingressos a R$ 20.Comunista convicto, o ex-membro do Partidão afirma que quem correu muito da polícia por causa da militância não sofre emoção nenhuma, mesmo com shows, disco ou DVD gravados. Tampouco está preocupado em se tornar uma personalidade a essa altura da vida. "Não queria ficar famoso, só queria ganhar dinheiro para deixar uma casinha para cada um dos meus filhos. Nem que fosse uma casinha de joão-de-barro, lá em cima da árvore", conta o compositor, que recebeu a reportagem do Estado no apartamento onde mora, no coração do Gonzaga.No entanto, o produtor Fernando Borgomoni, filho do músico, conta que seu pai ficou especialmente feliz ao ver os artistas do Cavalo de Praia cantarem suas canções em setembro de 2005, no bar do Sesc Santos. O show foi um projeto conjunto das produtoras do DVD e do disco, ambos patrocinados pela empresa TBE - Transmissoras Brasileiras de Energia. Os 26 minutos do documentário trazem várias cenas de um sorridente Renato, batucando e bebericando sua cervejinha gelada.Já a idéia do DVD foi de uma amiga da família, a diretora Ana Paula Guimarães. "A Ana Paula queria fazer um filme com o meu pai desde 95, então sempre que ela vinha para Santos fazia takes, entrevistas... A gente fazia roda de samba em casa e ela gravava", conta Fernando, que, em 2000, criou o Cavalo de Praia com a sócia Mariza Freitas.Mais que uma produtora, Fernando define o Cavalo de Praia como um movimento composto por um núcleo de produção e um núcleo artístico de resgate da música de Santos. O primeiro grande projeto foi o disco Cavalo de Praia: Sambas da Ilha, lançado em outubro de 2001 com seis compositores santistas desconhecidos do grande público, entre eles seu pai.A partir daí, o trabalho se concentrou na produção de discos individuais com esses artistas, começando por Borgomoni, por causa da idade dele e a amplitude da sua obra. Fernando conta que o compositor tem 110 canções registradas na Biblioteca Nacional. Na seqüência veio o CD de Elenira Ribeiro, lançado no dia 14.INFLUÊNCIASNo documentário, a historiadora Tânia Costa Garcia afirma que não é possível filiar o samba de Borgomoni ao paulista ou ao carioca. "Há um hibridismo na música que ele faz", disse a estudiosa de MPB, contando que sua obra foi preservada pela oralidade passada nas roda de samba.Nascido em Guariroba, no interior de São Paulo, Borgomoni chegou a Santos para tentar ser jogador de futebol. Jogou no Jabaquara, na época que o time de Plínio Marcos se chamava Espanha, mas ficou amigo do goleiro e desistiu da carreira. A partir daí, foi sapateiro, vendedor e portuário - aposentou-se como consertador de carga e descarga do porto de Santos.Suas canções passeiam pelos temas do cotidiano. Há canções falando de futebol e Pelé, do trabalho e do samba, da família e de amor, seja do casamento ou da morena, no caso, dona Nair, com quem está casado há meio século. Mas, principalmente, a obra de Borgomoni é sobre o mar, tratado na pesca, no porto ou nas ondas. No CD, há Banho na Minhoca, Se Todo o Lugar do Mar Tem Peixe, Peixe de Pobre e No Fluxo e Refluxo."Fora o Caymmi (Dorival), acho que o meu pai é quem tem mais esse motivo", conta Fernando, que define o pai como compositor de MPB e não sambista, pois Borgomoni criou marchinhas de carnaval, choros e bossas. Escreveu sobre o cavaquinho, mas, na vida, só aprendeu mesmo a tocar instrumentos de percussão. Prova disso é a forma que usa para criar suas composições: letra e música ao mesmo tempo, tudo de cabeça. Filho de imigrantes italianos, Renato Borgomoni conta que seu pai cantava a ópera La Traviata em casa, um irmão tocava trombone, outro pistão e havia também um flautista. Na foto de família, ele está sentado na bateria.

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