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Coletivo Superflex vai inaugurar o Museu do Amanhã no Rio

Grupo dinamarquês propõe ‘tour de baratas’ pela instituição, que está prevista para ser aberta no segundo semestre de 2015

Roberta Pennafort / Rio, O Estado de S. Paulo

04 Julho 2015 | 05h00

O Museu do Amanhã, na região portuária do Rio, será invadido por baratas em sua abertura, prevista para o segundo semestre de 2015. Mas ninguém vai sair correndo. A performance dos insetos humanizados (ou humanos “insetizados”) será trazida pelo coletivo de arte dinamarquês Superflex depois de fazer sucesso por três anos no Museu de Ciência de Londres. Os visitantes, em grupos de 30 pessoas, se fantasiam de barata e passeiam pelos espaços museológicos sob a perspectiva dos seres que antecederam o Homo sapiens na Terra há 200 milhões de anos.

De proposta original, o museu, com projeto arrojado do arquiteto-estrela espanhol Santiago Calatrava, tem como meta discutir o impacto do homem no ambiente em que vive e como isso determinará seu futuro no universo, de recursos finitos, e já escassos. Perguntas existenciais – quem somos?, de onde viemos?, como queremos conviver nos próximos 50 anos? – o norteiam. A brincadeira do “tour das baratas” se insere nessas reflexões, diz um dos fundadores do Superflex, Bjornstjerne Christiansen, de passagem pelo Rio.

“Sob o ponto de vista das baratas, os humanos são muito engraçados: eles lhes dão abrigo e comida e têm muito medo de morrer. Já elas sobrevivem até a bombas nucleares. A ideia é desafiar as pessoas a terem novas perspectivas, instigá-las a repensar tudo em que acreditam”, diz o artista, cujo coletivo se inteirou das particularidades dos insetos antes de formular o tour. As fantasias serão confeccionadas por costureiras da pequena e tradicional escola de samba carioca Vizinha Faladeira a partir do original trazido da Europa.

O grupo também vai trazer mais duas ferramentas para o Rio, a Copy Light Factory e a Free Beer. São trabalhos que questionam noções de propriedade intelectual e marca registrada. São dois workshops que ensinam visitantes a fabricar seus produtos – no primeiro, luminárias criadas a partir de imagens de designs consagrados, como as do francês Philippe Starck e do dinamarquês Paul H.; no segundo, cerveja com receita de cervejeiro da Dinamarca, que pode ser copiada por qualquer um.

A Free Beer já havia sido trazida ao Brasil – na época, o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, provou e aprovou: “Não só é de graça como é boa”, brincou. Dessa vez, a bebida será elaborada por uma fábrica local.

Os workshops serão realizados no Laboratório de Atividades do Amanhã, ambiente pensado para experimentações. “O Museu do Amanhã é original, propõe-se a identificar tendências que moldarão o mundo em que vamos viver no futuro. A expansão do conhecimento é uma delas. Quando se maximiza a disseminação de informações, mais as pessoas terão capacidade de refletir sobre as escolhas que farão”, afirma o curador da instituição, o físico Luiz Alberto Oliveira.

O Superflex, que tem no humor um instrumento – em seu site, a primeira imagem que surge é a frase “Estrangeiros, não nos deixe sozinhos com os dinamarqueses”, um pôster de 2002 de crítica à xenofobia –, foi criado por Christiansen e dois amigos em 1993. No Brasil, o coletivo gerou polêmica. A obra Guaraná Power, que desafiava os limites das marcas registradas e já havia sido exibida na Bienal de Veneza de 2003, foi censurada pela Fundação Bienal em 2006, a poucos dias da abertura da mostra sob a justificativa de que não havia sido considerada uma “atividade artística”.

O grupo, que criticava a indústria de refrigerantes, produziu o guaraná utilizando sementes cultivadas na cidade amazônica de Maués e se propôs a distribuí-lo a visitantes da Bienal. A proposta foi rechaçada pela direção da Fundação Bienal sem muitas explicações, mas as latinhas do produto, com tarja preta para reclamar da censura, acabaram sendo vendidas por ambulantes na véspera da inauguração do evento.

Já no Rio, as intervenções do Superflex farão parte das exposições de longa duração (três a cinco meses) do Museu do Amanhã, que vai ser aberto com uma exposição temporária sobre o viaduto da Perimetral, na região do porto, cuja demolição é simultânea ao surgimento do novo equipamento cultural. Trata-se de videoinstalação assinada por Vik Muniz e Andrucha Waddington, entre outros.

De formato longilíneo, similar a um barco – Christiansen brincou que se parece com o casco de barata – e que avança sobre a Baía de Guanabara, o Museu do Amanhã começou a ser construído em 2012 no Pier Mauá, no contexto da revitalização da zona portuária, degradada há décadas. O custo é de R$ 215 milhões (projeto do município em parceria com a Fundação Roberto Marinho).

Segundo a prefeitura do Rio, 97% das obras estão concluídas – no interior, o trabalho da museografia já começou; no exterior, o paisagismo (jardins e espelho d'água) está sendo executado. Não há data para a entrega do equipamento, que já deveria estar pronto. Os espaços oferecerão experiências sensoriais, instalações interativas e jogos com dados sobre o planeta. O museu terá cinco núcleos: Cosmos, Terra, Antropoceno, Amanhã e Imaginação.

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