Coletânea esconde Cadernos de Viagem

Disco raro de Sá & Guarabyra, produzido por Rogério Duprat em 1975, ressurge esfacelado em compilação de três CDs

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2009 | 00h00

Passa o tempo, mudam os formatos, o mercado pede socorro e as gravadoras continuam a sucatear seus acervos, insistindo em coletâneas em vez de investir nos álbuns originais - o que interessaria mais aos colecionadores. Em edição desleixada, a "vítima" da vez é o raro Cadernos de Viagem, da dupla Sá & Guarabyra com a cantora Marisa Fossa. Lançado originalmente em LP em 1975, o disco teve produção, arranjos de orquestra e regência do tropicalista Rogério Duprat (1932-2006). Chegou ao CD em 1994, mas logo saiu de catálogo.Além da ausência da arte original e de esfacelar o álbum, a série Super 3 (Warner) estampa uma mentira na capa, em formato de caixa: "34 super hits!!". Segundo trabalho da dupla, depois da separação de Zé Rodrix, o que Cadernos de Viagem não tem é hit. Tem, sim, belas e prazerosas canções em arranjos semi-acústicos e uma polirritmia compatível com o espírito estradeiro do projeto, com suas paisagens e personagens variantes, que inspiraram letras bucólicas, existenciais e afetuosas.A viagem começa pelo Rio, passa por Bom Jesus da Lapa (cidade natal de Guarabyra), Santa Maria da Vitória, Correntina e Montes Claros, entre outras, e termina em Belo Horizonte. O relato de episódios está impresso na capa interna do LP, que sumiu nas versões em CD, bem como a ficha técnica. Até chegar ao conteúdo integral de Cadernos de Viagem, todo espalhado pela coletânea, o ouvinte tem de saltar algumas versões ao vivo, que tomam boa parte dos três CDs, como Espanhola e Harmonia, estas, sim, hits de longo alcance.Ondina Poconé é uma das mais interessantes, com sua mistura de rumba e funk-jazz com toques de brasilidade. Com participação de Marisa Fossa no vocal, outras têm mais acentuadas as texturas de rock rural que identifica o trabalho da dupla, como a melancólica Dança o Atrevido, Mundo Invisível, a faixa-título e Roda o Mundo. Com violão à Novos Baianos, Lá Vem o Bicho tem algo de sambalanço com sotaque nordestino. Tarzan dos Cromados segue linha parecida, reverberando psicodelia e toques de música árabe.Muchacha é uma espécie de valsa folk, Véio Camalião é um divertido country-charleston. Passo-Preto tem um suingue próximo do samba-soul. Xote Correntino é da linhagem de Sete Marias, que eles emplacaram em 1980 e também está na coletânea. O Que Você Quiser é uma vinheta sem música, apenas com um som de respiração humana e ruídos de chuva e trovão ao fundo, até que alguém bate na porta e uma voz de criança pergunta: "Mamãe, você ainda está aí?" E então ouve-se o estrondo de um raio.Em 1975, Guarabyra disse que foi em Cadernos que eles estabeleceram um caminho: "Nele, o rock rural é muito mais rural do que rock, porque agora já temos o nosso público e podemos nos dar a esse luxo." Ele vinha mais "da experiência do sertão para a cidade", enquanto Sá e Rodrix fizeram o caminho inverso. A união dos três rendeu canções antológicas, como Hoje Ainda É Dia de Rock e Primeira Canção da Estrada, presentes nesta compilação, que fizeram a cabeça de muito mochileiro maluco. Falta recuperar Viajante, só lançada em compacto com Ribeirão do outro lado.

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