Coletânea de 25 anos de afeição às artes plásticas

O repórter e crítico Antonio Gonçalves Filho autografa hoje o livro Primeira Individual, uma seleção de textos publicados na imprensa de 1983 até 2008

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Com a artista e amiga Mira Schendel (1919-1988), o jornalista Antonio Gonçalves Filho aprendeu que arte visual tem de ser visual - "O sagrado está aqui ou em lugar nenhum", dizia ela, abarcando tantos sentidos em uma só sentença. Transportando esse pensamento para o jornalismo cultural, o texto não pode ser uma bula para o leitor: o jornalista tem de entrar no universo do artista e sua obra, recriando em palavras ideias imateriais e materiais. Ao longo de 35 anos de profissão, Gonçalves Filho tem desenvolvido essa prática ao escrever sobre diversos temas - e em especial no campo das artes plásticas, tão caro à sua sensibilidade, como mostra a coletânea Primeira Individual (Cosac Naify), livro que ele, repórter especial do Caderno 2, lança hoje na SP-Arte.A obra reúne textos sobre arte brasileira publicados entre 1983 e 2008 em jornais como o Estado, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e nas revistas Veja e Bravo. Do conjunto das análises, reportagens e perfis resulta um panorama duplo: de um lado, estão retratados 25 anos de dedicação pessoal do autor, como crítico, às artes plásticas; de outro, os caminhos, movimentos e momentos mais marcantes da produção artística nacional testemunhados pelo jornalista. "Comecei a escrever sobre artes visuais quando iniciava o mercado de arte, nascia a Geração 80 e aumentava o espaço nos jornais para falar dessa área", diz Gonçalves Filho.Era um momento de ebulição da cena artística brasileira, presenciado de perto por ele em São Paulo. "Para mim, que tinha um contato íntimo com a pintura, já que meu pai pintava e minha irmã, Ilda (a quem ele dedica a obra) pinta, aquela época era um prato cheio", conta. Mas é preciso dizer que Primeira Individual (também com textos de apresentação assinados pelo crítico Rodrigo Naves e pelo pintor Paulo Pasta) vai além do que seria o testemunho de uma geração e se transforma em um panorama amplo da arte nacional. A edição inclui textos sobre arquitetura e fotografia, percorre a produção de criadores de desde o século 19 (sobre a obra de Almeida Júnior), da arte moderna à contemporânea, sempre conservando o teor jornalístico dos escritos tal como foram originalmente publicados. Nesse sentido, é rico poder ver pelas palavras dos próprios artistas a maneira como veem e definem suas obras - e como o livro compreende um percurso de 25 anos, percebemos transformações duplas de percepções: as dos criadores e do autor ao longo do tempo.Por ideia do editor Charles Cosac, o livro está dividido em forma de abecedário: de A a W estão reunidos os textos sobre 49 criadores (o primeiro é Abraham Palatnik, o último, Willys de Castro) e ainda sobre o construtivismo, o movimento neoconcreto e a Semana de 22. "Existem ausências de artistas muito bons, mas o livro é uma seleção pessoal do editor", afirma o jornalista, que já lançou em 2001 A Palavra Náufraga pela editora, com seus ensaios sobre cinema. Entre os nomes contemplados em Primeira Individual, é importante ressaltar que alguns deles estão presentes com mais de um texto, revelando, de certa forma, serem eles criadores com os quais Gonçalves Filho tem "mais afinidade", como Tunga, Mira Schendel (apresentada a ele por Naves), Nuno Ramos e Paulo Pasta (amigo do autor e um de seus pintores favoritos), Amilcar de Castro e Guignard. Ao lermos os seus textos, percebemos que o jornalista, nascido em Santos, em 1952, criou um estilo peculiar de escrever sobre as artes visuais, misturando, naturalmente, arte e vida.

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