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Coleção de curador propõe uma nova história da fotografia

Rubens Fernandes Junior usa seu acervo de papéis efêmeros para lembrar passado do comércio de câmeras e filmes

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2015 | 03h00

A história da fotografia é a história dos que triunfaram como profissionais, promoveram revoluções estéticas e tiveram sua obra registrada em livros luxuosos. Em casos excepcionais, como o do fotógrafo francês Edmond Fortier (1862-1928), que passou parte da sua vida no Senegal, foram os colecionadores de seus postais que colocaram seu nome em evidência, ainda assim quase um século após sua morte, graças ao empenho da editora brasileira Daniela Moreau. As centenas de fotógrafos anônimos que registraram as metrópoles brasileiras ou os artistas gráficos que ajudaram a projetar casas especializadas em fotografia não tiveram igual sorte. Impressos jogados ao vento, quase ninguém se preocupou em guardar seus trabalhos, engolidos pelo tempo. Mais uma vez, é um colecionador que, atraído por esses produtos descartados, conseguiu juntar um vasto material, reunido agora no livro Papéis Efêmeros da Fotografia.

O professor e crítico Rubens Fernandes Junior publicou o livro – o primeiro de uma série que ele espera ter cinco volumes – com o dinheiro do prêmio Marc Ferrez. O carioca Marc Ferrez, como se sabe, foi o principal fotógrafo do século 19. Deixou como legado mais de 15 mil imagens de todas as regiões brasileiras, de Norte a Sul, sendo também empresário pioneiro na área, ao abrir um estúdio, por conta própria, no centro do Rio, em 1867. Poderia figurar no livro. No entanto, como se disse, a obra de Fernandes é dedicada não a celebridades, mas a uma extensa galeria de anônimos – lojistas, balconistas, laboratoristas, ilustradores e impressores – que ajudaram a promover a fotografia no Brasil e não foram contemplados pelos teóricos que escreveram essa história.

Fernandes coleciona postais, folhetos publicitários e todo tipo de material relacionado à fotografia há mais de 30 anos. Com ele é possível recontar a história cultural da técnica fotográfica e do design gráfico sob nova ótica. A democratização da prática fotográfica no Brasil, aponta o autor, não teria sido possível, por exemplo, sem pacientes balconistas e lojistas que orientavam a escolha dos melhores equipamentos e davam dicas aos clientes, seja em conversas na própria loja ou por meio de folhetos ilustrativos.

Distribuídos gratuitamente por casas como a Lutz Ferrando, eles traziam informações técnicas como os valores de sensibilidade dos filmes disponíveis no mercado ou uma tabela segura de exposição de acordo com as condições do dia.

Hoje, na era do selfie, com a facilidade das câmeras automáticas e celulares, tudo isso parece dispensável, mas também essa história, a da banalização da fotografia na era digital, terá de ser contada um dia. Com a presença material dos efêmeros nas mãos, Fernandes concluiu que movimentos artísticos como a arte concreta influenciaram tremendamente a produção gráfica das embalagens. O visual dos papéis efêmeros, lembra o autor, sempre esteve sintonizado com as tendências contemporâneas, se apropriando ora da linguagem dos concretistas ora da pop art.

Ao fazer isso, Fernandes diz seguir um conselho de Walter Benjamin: é preciso escrever a história a contrapelo, no sentido contrário ao que fazem os conservadores, ou seja, do ponto de vista dos vencidos. Quase ninguém dá muita atenção aos “papéis efêmeros” que o professor busca nas feiras dominicais de rua, nos sebos ou antiquários, mas já existe lá fora uma extensa bibliografia sobre a evolução da indústria gráfica e dos processos de impressão baseada nesses achados, nesses papéis avulsos que o vento levou. O recorte deste primeiro volume, que deve virar série, vai dos anos 1920 até 1960.

O autor analisa como a relação de confiança da clientela nas casas fotográficas ajudou a sedimentar o nome de estabelecimentos como a Fotoptica, a Kosmos Foto e a Lutz Ferrando junto a fotógrafos amadores que eram profissionais liberais, ao valorizar a privacidade – afinal, entregar um filme para ser revelado era como expor a vida pessoal, hoje hábito comum no Instagram. “As casas tiveram um papel educativo fundamental graças aos atendentes”, diz, lembrando o papel da pioneira Fotoptica – o laboratório de maior longevidade no Brasil (1920-1997), que publicou desde o início de suas atividades um catálogo de produtos que virou jornal e, mais tarde revista, além de ter incentivado a criação de clubes de fotografia.

Fernandes entrevistou, entre outros veteranos, o fotógrafo Thomaz Farkas (194-2011), que herdou do pai Desidério a cadeia de lojas da Fotoptica, inaugurada em 1920. Olhando os “efêmeros” da Fotoptica, Fernandes concluiu que sua importância no cenário foi enorme, tendo formado dezenas de fotógrafos em seu laboratório, entre eles Fredi Kleemann, que participou da criação do histórico Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo.

Os “efêmeros” do professor, porém, não se restringem à capital. Ele colecionou papéis de outras cidades, entre elas Recife, com tradição nas artes gráficas e também pioneira no fotocineclubismo. Em São Paulo, o autor conseguiu achar efêmeros preciosos, entre eles pedidos de revelação e ampliação feitos pelo historiador e fazendeiro Paulo Prado (1869-1943) e o bisneto de Hercule Florence (1804-1879), pioneiro da fotografia no Brasil.

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