Coerente trabalho de prospecção

Obra confirma lugar do tradutor como ator ativo no processo de transporte do texto de uma língua para outra

Ricardo Lísias, O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2008 | 00h00

O terceiro volume do Livro das Mil e Uma Noites, que acaba de ser publicado, consolida o projeto de tradução de Mamede Mustafa Jarouche como uma das obras literárias mais relevantes da cultura brasileira. Os méritos são tantos que eu precisaria da edição de domingo do jornal inteiro apenas para listá-los. Trata-se da primeira versão completa das noites traduzidas para o português diretamente do árabe. Além do texto propriamente dito, os volumes aparecem com acompanhamento crítico do tradutor e um conjunto de notas que não apenas esclarecem passagens obscuras, como muitas vezes oferecem também pequenos comentários, tornando-se quase um material à parte. Os dois primeiros livros reúnem as chamadas "noites do ramo sírio", que estão nos manuscritos mais antigos consultados pelo tradutor. Esse terceiro, o primeiro do "ramo egípcio", traz textos de um original mais recente. Completamente à vontade, o tradutor demonstra grande fluidez e imprime ao texto bastante agilidade, muito coerente com o fio das noites. Como o leitor sabe, o motor da história é simples: traído pela esposa, um rei decide proteger-se do adultério das suas próximas mulheres através de uma solução radical, a de matá-las ao final da primeira noite que passem juntos. Quando chega a vez da hábil Sahrazad (essa é a grafia que as edições estão adotando, em respeito às particularidades da língua árabe), para contornar a execução ela resolve contar ao rei um conjunto de histórias que, uma se encadeando à outra, não teria fim, o que então a pouparia. É dessa maneira que o mundo viu surgir um conjunto de textos deliciosos de serem lidos, para dizer o mínimo. Já bastante reconhecido como um trabalho de tradução exemplar, o conjunto de livros de Jarouche guarda algumas particularidades ainda pouco discutidas. De início, é fácil enxergar um trabalho monumental de investigação. Analisando os diversos manuscritos, o tradutor elegeu os que poderiam compor um texto coerente e assim encontrou uma ordem única. Seu trabalho inédito de prospecção - o termo é exato para o mundo árabe... - acaba gerando praticamente um novo texto. As conseqüências são inúmeras. No caso, não vale a pena perder tempo lembrando de dar razão a Jorge Luis Borges, nem ele precisa disso. É mais importante perceber que, por conta de uma composição inédita, mas ao mesmo tempo rigorosa com os originais escolhidos, o trabalho de Jarouche confirma o lugar do tradutor como um ator ativo no processo de transporte de um texto de uma língua para outra. Quem não quiser admitir, no caso, que o tradutor é, ao seu modo, um criador, terá ao menos que reconhecer seu lugar artístico fundamental. A arte funciona exatamente sob os mesmos princípios que Mamede Mustafa Jarouche elegeu para nortear sua tradução. Um dos valores mais notáveis do trabalho artístico é a força com que ele consegue varrer clichês. A presente edição do Livro das Mil e Uma Noites, feito um trator, derruba inúmeros. Além do lugar coadjuvante do tradutor (Mamede Mustafa Jarouche aparece, com toda justiça, na capa dos volumes, no mesmo lugar que um autor ocuparia), fica derrubada aqui de uma vez por todas qualquer insinuação de falta de grandiosidade do mundo árabe. Podemos, assim, contar mais um princípio artístico: toda grande obra resiste aos aspectos de banalização de seu próprio tempo. Agora, a cultura árabe está representada por um trabalho de dimensões poucas vezes equivalentes entre nós. No âmbito da tradução, eu arriscaria dizer que nenhuma outra recebeu um tratamento tão digno. A propósito, o conjunto de livros aparece justamente quando os setores mais conservadores da política internacional escolheram a civilização árabe (peço desculpas pelo termo, já que é óbvio que não existe uma possibilidade de generalização tão grande) como alvo e também válvula de escape para a indústria bélica. Como sempre, o discurso conservador se reveste de simplificações grosseiras. Não por acaso, Jarouche não se permitiu nem uma linha de simplicidade, criando uma verdadeira barricada de alto nível literário. No Brasil, a cultura árabe está resguardada e esse é um dos méritos mais valiosos dessa coleção de livros. Deixei para o final, ainda, um detalhe importante do Livro das Mil e Uma Noites: antes de tudo, poucas leituras são tão prazerosas. O terceiro volume traz algumas histórias bastante conhecidas, como a do marujo Sindbá (cujo rigor da edição grafa Sindabad) e também algumas das passagens que Pasolini utilizou na sua bela adaptação. O próximo livro, previsto para o começo de 2009, guarda uma surpresa: será composto por apenas uma noite, o que resume bem o fôlego criativo de Mamede Mustafa Jarouche. Nós, leitores ansiosos, ao menos temos um consolo: se um ano parece tempo demais para quem gosta de ler todos os dias, essas noites que estamos conhecendo aos poucos com certeza irão durar para sempre. Como toda grande literatura! Ricardo Lísias é escritor, autor de, entre outros livros, Anna O e Outras Novelas

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