Clube da Esquina na visão de quatro compositores

Palavras Musicais, do jornalista Paulo Vilara, desvenda o processo de criação dos letristas mineiros Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Chico Amaral

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

04 Outubro 2007 | 00h00

Nove anos e dezenas de horas de entrevistas depois, o jornalista mineiro Paulo Vilara terminou o livro Palavras Musicais (R$ 59, 408 págs.), no qual reúne longas conversas com os compositores conterrâneos Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Chico Amaral. Nas perguntas, a preocupação era trazer à tona e entender a visão de mundo e o processo de criação das letras de cada músico. A publicação será lançada hoje, às 21h30, em show gratuito com a participação de Borges e Antunes no CEU Casa Blanca, na zona sul da capital. Vilara registra os compositores ligados à fundação do Clube da Esquina, em Belo Horizonte, que criou ''''um jeito novo de harmonizar, compor, cantar''''. Com o elepê homônimo, de 1972, a presença da poesia nas canções ganharia grande e renovada importância. A imprensa, a partir de então, passaria a se referir àquele grupo de jovens músicos, entre os quais se destacaria o Bituca, apelido de Milton Nascimento, como o Clube da Esquina.O contato se deu cedo. Quando tinha 13 anos, Vilara passou a andar com a turma do Edifício Levy, na Avenida Amazônia, onde moravam Wagner Tiso, Milton Nascimento e Márcio Borges. ''''Não fosse o incentivo mútuo, nem eu nem o Bituca seríamos compositores'''', conta Borges. ''''Ele seria um economista executivo e eu, um professor universitário'''', continua. Sobre Fernando Brant, com quem divide espaço em Palavras Musicais, Márcio Borges diz que é fundamental na vida artística de Milton Nascimento. Brant e Milton compuseram Travessia, que tirou o segundo lugar no 2º Festival Nacional de Canção e mudou a história da turma do Edifício Levy. ''''Com Travessia e outras composições, Brant tornou-se conhecido mundialmente; tal como uma Garota de Ipanema, seu trabalho é identificado com o Brasil lá fora'''', diz Borges, autor de Viver, Viver em parceria com Lô Borges e Murilo Antunes. Borges considera o letrista Murilo Antunes antes de tudo um poeta. E manda um recado - ''''ele se divide em muitas tarefas, devia deixar de lado o trabalho publicitário e não a poesia''''. Embora Antunes responda que não faz poesia quando quer, mas quando a inspiração exige. O saxofonista Chico Amaral, que é posterior ao Clube da Esquina, mas do qual se pode dizer que é um herdeiro, deixou-se influenciar pelas letras dessa turma que compara às ''''passagens mais duras, radicais e antilíricas do mineiro Carlos Drummond de Andrade''''. Falar poeticamente de coisas do dia-a-dia é uma das características de Chico Amaral, determinante no sucesso do Skank, na opinião de Márcio Borges. ''''Ele é como um Bob Dylan que relata o cotidiano de forma poética, com um pé na contestação.'''' Palavras Musicais traz cerca de 400 imagens, entre fotografias e capas de LPs e CDs, além da reprodução de letras e poemas inéditos e depoimentos de 11 parceiros sobre os quatro entrevistados, como Milton Nascimento, Wagner Tiso, Samuel Rosa, Flávio Venturini, Lô Borges, Toninho Horta, Tavinho Moura, Nelson Angelo e Beto Guedes. Poema Inédito ANTES QUE O MUNDO ACABE, DE MURILO ANTUNES: Antes que o mundo acabe Vou ladrilhar o céu com lágrimas transparentes Vou molhar as sementes (Antes que o mundo acabe) A deslizar no acaso Lembro cidades que vi, fazendas que não conheci Bebo saudades de tudo agora Vou ser mineiro, sem jeito, sem mar, sem dinheiro Quero ser por inteiro Com destreza e sentimento de revelar o secreto Subir e descer barrancas Cantigas antigas cantarolar Ouvir o coração da montanha De sapatos furados sonhar o de sonhar Vou ser mineiro depressa

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