Clint Eastwood é aplaudido de pé, num ato de pura tietagem

The Exchange, com o qual concorre à Palma de Ouro, está longe de ser ótimo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2008 | 00h00

Clint Eastwood foi glorioso, aplaudido de pé durante a homenagem a Manoel de Oliveira, na segunda-feira a tarde. Dois gigantes - bem diferentes um do outro - do cinema. Clint continuou muito aplaudido ontem após a projeção e, depois, na coletiva após a exibição de The Exchange - ex-The Changelling -, seu longa em competição, que concorre à Palma de Ouro. Como no caso dos irmãos Dardenne, no dia anterior, os aplausos foram um ato de tietagem. O novo Clint não chega a ser ruim, claro, mas está longe de ser um de seus grandes filmes.O filme conta a história de uma mãe cujo filho foi seqüestrado. Ela se bate contra a violência das instituições e a corrupção da polícia para reaver sua cria. É agitada por um padre que faz campanha contra as autoridades, pelo rádio, na Los Angeles de 1928. A história é real e conta como a polícia, pressionada pela opinião pública, tenta resolver rapidamente o caso, impingindo a Angelina Jolie um garoto que, obviamente, não é o filho dela. Quando a mãe tenta protestar, é encarcerada no manicômio judiciário. Paralelamente a todo esse horror se desenvolve outro - o garoto foi vítima de um serial killer que cometeu mais 20 assassinatos de garotos.É uma história real e Clint revelou que a leu rapidamente - devorou - no vôo para Berlim, no ano passado, quando foi apresentar As Cartas de Iwo Jima no festival. Durante o vôo de volta, ele já estava decidido a fazer The Exchange. O filme, como você pode perceber a partir da sinopse acima, lhe permite retomar de outro ângulo, agora o da mãe, o abuso infantil de Sobre Meninos e Lobos. A Los Angeles degradada de The Exchange parece um desdobramento da cidade dos anjos de Chinatown, de Roman Polanski, e L.A. Confidencial, de Curtis Hanson, ambos obras superiores. A complexidade do roteiro e dos personagens choca-se muitas vezes com uma certa banalização proporcionada pelo déjà vu de muitas cenas e situações. Pode-se questionar se The Exchange conseguiria entrar na seleção oficial do 61º festival, se o diretor não fosse o prestigiado Clint (que até já presidiu o júri, aqui, na Croisette).Muita gente se fez a mesma pergunta depois de assistir a Two Lovers, de Michael Gray, na segunda à noite, mas neste caso elas não tinham razão nenhuma. Por melhores que estejam sendo alguns filmes da competição - casos, principalmente, de Linha de Passe, Um Conto de Natal e Three Monkeys, respectivamente de Walter Salles e Daniela Thomas, Arnaud Desplechin e Nuri Bilge Ceylan -, the best até agora é a história de amor desencontrada de Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow, que têm, cada um, o seu par, o que faz com que os dois amantes na verdade sejam quatro. Mas o filme é muito mais do que isso.Numa entrevista que deu, aqui mesmo em Cannes - o filme era The Yards; Caminhos sem Volta -, Charlize Theron disse ao repórter do Estado que o filme favorito do diretor é o clássico Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. Deve ser mesmo, pois Michael Gray chega a reconstituir uma cena famosa de Rocco para marcar o primeiro encontro de Joaquin e Gwyneth. E mais - como em seus policiais crepusculares (Fuga para Odessa, Caminhos sem Volta e o magnífico Donos da Noite), o novo filme (romântico) do autor é uma tragédia familiar. A família, sempre a família, que está no centro de numerosos filmes aqui no 61º festival. Isabella Rossellini faz a mãe de Joaquin Phoenix, e ela também viu Rocco e Seus Irmãos, com certeza.

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