Clima noir no Confronto de Domingos Oliveira

Diretor impõe ritmo ágil à peça, livre adaptação do livro Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, que fala sobre corrupção, mas tira a violência do primeiro plano

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

"Ninguém mais se interessa por fazer teatro. As pessoas acham que qualquer viagenzinha para Búzios é mais importante do que uma peça", diz Domingos Oliveira. O tom pode parecer de desencanto, mas, aos 72 anos, o autor, diretor e ator segue acreditando que nada vale mais do que levar as discussões que considera fundamentais para o palco. É com entusiasmo que ele encena Confronto, em cartaz até 14 de junho no Espaço Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira 160, Copacabana - 5.ª a sáb., 21 h; dom., 19h30 -, R$ 16). "O teatro é o último reduto da inteligência. É onde se deve discutir as ideias com mais liberdade", justifica. As ideias que ele quer discutir estão na pauta do dia. Em sua cabeça, desde que leu Elite da Tropa, best-seller do antropólogo Luiz Eduardo Soares e dos policiais André Batista e Rodrigo Pimentel. Na primeira leitura do livro, Domingos viu que dali poderia sair uma peça. E uma montagem em que a violência (tiros, sessões de tortura, surras) não estivesse em primeiro plano - bem diferente do que se viu no filme derivado da publicação, o superpremiado Tropa de Elite, de José Padilha. A "livre adaptação" de Elite da Tropa, que se ateve à sua segunda parte, contou com a participação do próprio Soares, que trabalhou com Domingos e Márcia Zanelatto. Os traficantes de drogas - que promovem uma série de ataques a tiros durante a chamada "sangrenta madrugada sangrenta" - e os policiais corruptos continuam no foco, mas o personagem central não é mais o capitão Nascimento. Ele e seus colegas do Batalhão de Operações Especiais nem sequer aparecem, aliás. No centro da trama, estão o governador, o chefe da Polícia Civil, o comandante da Polícia Militar, o capitão que faz conchavo com criminosos. O secretário de Segurança Pública (vivido por Michel Bercovitch, único nome conhecido no elenco) é a figura honesta da história. Mesmo em meio a falcatruas, tanto de seu superior quanto de seus comandados, ele continua acreditando que é possível mudar a realidade em que vive - tal qual Domingos. "O problema da segurança tem saída. Muita gente acha que pensar assim é romântico, mas não é." A peça, que corre em ritmo ágil, e em clima noir, até tem tiros, mas o que realmente interessa é o que acontece nos bastidores da cúpula da polícia. São 19 atores em cena. Domingos não se incomodou com as críticas de que o elenco é irregular. "Meus atores são bastante inexperientes, e, por isso, irregulares. Mas é uma equipe brava." Eles quase enlouquecem com os vaivéns do roteiro, que está atualmente em sua 26ª versão. Domingos é um otimista, acha que tudo, e não só seu texto, vai melhorar. Crê que essa é uma escolha que todos podem fazer na vida. Acaba de sair de uma pneumonia braba, que o deixou acamado na primeira semana do espetáculo, e acha que já está novo. Os planos não param. Tem quatro roteiros prontos, mas pretende se dedicar somente a um: uma comédia romântica para o cinema que vai ser uma continuação de Separações (2002), seu filme de maior público (fez 150 mil espectadores).Com ele e a mulher, Priscila Rozembaum, como protagonistas, a sequência vai se chamar Os Inseparáveis - o casal estará comemorando bodas de prata. "É a melhor coisa que eu já escrevi", ele diz. Só falta captar. Dessa vez, Domingos quer um filme mais caro, e que não fique só no circuito dos filmes de arte. "Todos os meus filmes, desde Todas as Mulheres do Mundo, ficaram restritos. Já defendi muito o filme de baixo orçamento, mas eu vi que você se arrebenta no lançamento. O problema é que nunca me dei com essas (distribuidoras) Fox, Columbia... Elas querem ser donas do meu trabalho. Querem que tirem o ator tal e coloquem alguém da (TV) Globo." No teatro, planeja finalmente encenar Do Fundo do Lago Escuro, sua peça de 30 anos atrás já montada no Rio por Fernanda Montenegro, e, em São Paulo, pelo Grupo Tapa. Trata de sua infância. Ele mostra com orgulho a foto de seus antepassados que enfeita a parede de seu apartamento no Alto Leblon. É de 1907, e nela aparece o personagem que vai interpretar na peça: a avó, Dona Sinhá. Paralelamente a esses trabalhos, apresenta com Priscila o novo projeto no Canal Brasil, Swing, em que os dois entrevistam casais de artistas. Vez ou outra esboça capítulos de sua biografia (já tem editoras interessadas). Ainda está escrevendo sobre os vinte e poucos anos. "Talvez eu nunca termine... Mas a obra fala mais que o homem."

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