Claus-Peter Flor faz trabalho de ourivesaria

À frente da Osesp, maestro conduz programa refinado com Gabrielli e Haydn

Crítica Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2009 | 00h00

Concebidas para explorar os grandes espaços da Basílica de São Marcos, em Veneza, com riqueza de timbres e recursos antifonais, pela colocação dos grupos de instrumentos em pontos diferentes da catedral, as Sinfonias Sacras de Giovanni Gabrielli fizeram parte da segunda apresentação da Osesp com Claus-Peter Flor. Intercaladas às Sinfonias nº 6, 7 e 8 de Joseph Haydn - a trilogia Le Matin, Le Midi e Le Soir -, elas formaram um dos programas mais refinados e de concepção inteligente deste ano.A profunda ligação dessas três sinfonias de Haydn com o passado barroco justifica que elas sejam postas lado a lado com as opulentas sonoridades da música de Gabrielli. Vinculadas à tradição barroca da sinfonia descritiva, elas trazem não apenas resquícios do concerto grosso - as numerosas intervenções solistas ao longo das peças - como procedimentos formais típicos da grande escola instrumental italiana da primeira metade do século 18. E o que se viu Claus-Peter Flor fazer, na noite de quinta-feira, foi um verdadeiro trabalho de ourivesaria musical.Nas suas mãos, a Osesp adquiriu as sonoridades leves e transparentes de uma orquestra de instrumentos originais. Foram admiráveis as participações solistas - o violino, a flauta ou a trompa no Matin; o duo do violino com o violoncelo no Midi; o solo de contrabaixo no Soir - e as passagens de evocação dos fenômenos da natureza, como o nascer do sol no início do Matin, ou a tempestade com que se encerra Le Soir, em que o uso da flauta para sugerir os relâmpagos já anuncia A Criação, de 40 anos mais tarde.Porque esse é um aspecto fundamental da trilogia sinfônica de Haydn, que Flor soube enfatizar brilhantemente. Embora enraizada no passado, ela joga pontes muito claras para o futuro. No maravilhoso final do movimento lento do Matin, por exemplo - de que a Osesp extraiu toda a poesia -, já existe a promessa do início da Criação. Assim como na mistura de popular e de erudito do Soir; nas bruscas assimetrias que vêm, bem-humoradamente, romper a regularidade clássica - filigranas que, nas mãos de Claus-Peter Flor, ganham um relevo todo especial. Foi o típico concerto que, às emoções sensoriais do prazer de ouvir música, somou o delicioso exercício intelectual de ouvi-la apresentada sob ângulos novos.

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