Civilização

O que é ser civilizado? Para os ignorantes e os insensíveis, ser civilizado é fazer como fazemos, viver como vivemos, comer como comemos, falar como falamos, crer no que acreditamos - em suma: ser como nós.Esse tipo de pensar autojustificado ou referenciado é recorrente em todas as sociedades humanas conhecidas. "Mesa", conforme me dizia um amigo um tanto embriagado, é melhor do que "table"...Sabe-se de sociedades que admiraram um utensílio ou arma, à primeira vista; que tomaram um gesto como excepcionalmente elegante; e que equacionaram os estrangeiros a inteligência, aos deuses e a espíritos ancestrais, mas nenhuma sociedade converteu-se a uma outra imediatamente. Nenhum grupo abandonou o conjunto de pontos de partida arbitrário (somos o povo escolhido, o Criador nós poupou da feiúra e da miséria, todos os homens têm direito a muitas mulheres, no céu não há cunhados e sogros, não se deve matar para comer, o fogo pertencia à onça, o mundo foi feito em sete dias, existem muitos deuses...) que fundam sua cultura ou sistema de valores como limite ou prescrição sem um doloroso e profundo exame interno que, ao lado das pressões externas, conduzem à mudança.O processo normal sempre foi marcado por um perturbador voltar-se para dentro de si mesmo promovido pelo olhar estrangeiro. Um olhar quase sempre, deletério, desmoralizador e exterminador do outro. Esse olhar de bruxo ou de inimigo que deflagra o devastador entendimento de que, no fim e ao cabo, o mundo pode ser construído de muitas maneiras. A nossa sendo uma entre muitas outras.De longe, a diversidade é tomada com serena tolerância e prova de civilização. O mesmo ocorre quando o alienígena é uma minoria impotente e do fim do mundo onde vivem, não disputam nenhum bem, estilo de vida ou riqueza conosco. Fácil amar os índios de álbuns de fotografia, dos livros de José de Alencar e dos filmes de Kevin Costner. Difícil é arranhar um início de compreensão abrangente suspendendo a má-fé, esse hóspede inescapável (embora não convidado) à farta mesa das alteridades. Por compreensão abrangente, entenda-se aqui o simples ato de ter para com o outro - o considerado incivilizado, infantil, bárbaro, índio, estrangeiro, atrasado ou rústico - um mínimo de boa vontade: uma colher de chá que permita encarar o diferente como uma alternativa e não como alguma coisa contrária e ofensiva aos nossos costumes.Menciono essas coisas porque volto de uma participação gratificante na 25ª reunião da Associação Brasileira de Antropologia. Lá, um destacado colega e amigo, o professor Otávio Velho, dividia comigo as suas preocupações diante do que ocorre hoje neste Brasil que retoma o seu afã desenvolvimentista, tão necessário à superação de suas mazelas sem, entretanto, considerar com a devida cautela, e por meio de novos modelos, o lugar da natureza (os animais, as plantas e os rios da floresta amazônica) e, com ela, a dessas humanidades dotadas de tecnologia humilde - os chamados "índios". Historicamente essas florestas, esses bichos, esses rios e esses povos sempre foram tidos como obstáculos e como inimigos do progresso e, mais grave do que isso, da civilização e do desenvolvimento.A responsabilidade e, sobretudo, o desafio da antropologia como uma disciplina devotada à reflexão sobre as diferenças é grande quando um certo Brasil descobre que a Amazônia não é mais uma terra a ser conquistada ou protegida. Não é nem mesmo mais uma fronteira, pois é parte integral do Brasil. Mas ser parte do Brasil não significa estar submetida exclusivamente aos ditames do agronegócio ou de uma cadeia de megaconsumo destrutivo. Há que se pensar nas peculiaridades dessa região para poder explorar responsavelmente suas potencialidades.Ninguém pode ser contra o "desenvolvimento". Mas é preciso discriminar para aonde vai a riqueza por ele produzida, bem como os procedimentos usados na sua produção. Não dá mais para usá-lo como um argumento definitivo a favor da destruição da floresta, pensando que ela tem (como ocorria no passado) uma infindável capacidade de regeneração.O mesmo pode ser dito relativamente às sociedades tribais. É preciso ser mais crítico com a rotineira veiculação de imagens do "índio" apenas como um selvagem agressivo e atrasado, contrário à civilização e potencialmente destinado à imolação de seus valores. Existem muitas outras cenas da vida dessas coletividades que, exibidas, revelariam o oposto.Nenhuma sociedade humana é totalmente civilizada ou primitiva. Protegemos os animais, mas adoramos lutas de boxe e touradas; somos igualitários e, ao mesmo tempo, insensíveis à miséria mais abjeta. O mesmo ocorre com os "índios". Alguns têm automóvel, conta bancária, andam vestidos, falam português e - como nós - clamam por seus direitos. Não foi assim que elegemos o Lula? Apontem-me um povo, partido político ou pessoa sem contradição. Reconhecer a contradição interna (e, com ela, que o rei está mesmo nu) é o primeiro passo para compreender que o diferente é uma alternativa - um outro modo de fazer -, não é sinal de inferioridade ou superioridade. O diferente leva (ou deve levar) à ética e à negociação, não à amoralidade ou ao extermínio.

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