Cinismo na sala, falta de ética no País

Em Mediano, de Otávio Martins, o ator Marco Antônio Pâmio ilumina a cena e celebra seus 25 anos de respeitável carreira

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2009 | 00h00

O título Mediano é acertado, mas o espetáculo poderia ser chamado de Superior graças o ímpeto cômico-dramático do ator Marco Antônio Pâmio. Estamos diante de um desses casos em que o intérprete conduz a encenação para um plano artístico maior. Pâmio impõe ao realismo do enredo um oportuno tom de absurdo para o que se tem de ouvir. Complementa em chave delirante o texto de Otávio Martins, autor que surpreende com novidades no cansado tema "a crise nacional". A situação do País é tão pastosa que pode arrastar ao vácuo qualquer crítica que se lhe faça. Otávio, porém, arma uma sequência de flashes certeiros, golpes exatos ao montar uma visão panorâmica de 30 anos de História Brasilis em que tudo é dito sem lamúria ou prolongamentos além do sabido. É preciso uma estratégia hábil de escrita quando se vai narrar o que a cidade/ capital, Brasília, acolhe, esconde e promove. A saber: a falência do ideal da Coisa Pública (res publica) e o aviltamento do sistema parlamentar. Pior - irradia a tentação das soluções extremas como revolução errática, bonapartismo ou a odiosa tutela militar. Política está tão associada a descalabro que hoje se lê mais rapidamente o jornal. Este sentimento está se disseminando, alerta o historiador Boris Fausto na seção Espaço Aberto de O Estado (31/5/2009): "Acredito que muitos leitores deste jornal façam como eu. Leio os títulos da primeira página e vou direto às matérias internacionais e algumas outras, mas apenas passo os olhos nas que tratam da política nacional. Irrelevância do tema? De modo algum. Essa leitura reflete um sentimento de cansaço, decorrente da repetição de eternos problemas quase nunca solucionados." O historiador conclui que a crise das instituições é "um obstáculo para que o País se torne, sem ilusões, uma democracia madura". O fato é que a opinião pública atual tem baixo efeito. Acabou-se a ilusão literária do "ridendo castigat mores" - a divisa latina, adotada por Molière, de castigar os maus costumes pelo riso. Os comediógrafos que se cuidem. São sutilmente ignorados, glosados ou docemente assimilados. Enquanto dramaturgo, Otávio Martins escapa, ainda, da cilada óbvia ao introduzir a questão existencial na história. As pessoas em geral se perguntam se suas vidas valem/valeram alguma coisa ou tudo é/ foi apenas vasto nada. Mediano coloca em cena um homem fruto da mentalidade social parasitária que prevê a faculdade, mesmo contra a vontade, buscar um emprego público, e se encostar. O resultado é a vida como na canção Panis et Circenses, de Caetano Veloso: "Mas as pessoas na sala de jantar/São ocupadas em nascer e morrer." O personagem até teme semelhante destino mas faz uma opção torpe. Transforma o tédio em cinismo e escala o chamado "sistema". Acaba serviçal de político duvidoso, "o homem da mala", e lobista em Brasília. Calhorda movido a "pó" e limítrofe entre o suicida e o absoluto psicopata. O autor conta, assim, o ultrassabido, mas acrescentando o laivo de loucura diferente da sátira superficial. Há pontos discutíveis como usar o homossexual, eterno bode expiatório, como um dos sinais de família em crise. Mesmo que involuntariamente, há algo conservador por aí. Também não faz sentido um oportunista venal e protegido dar um tímido passo atrás e se casar com a mocinha que rejeitara. Cacoetes de certa tradição cômica que não afetam o apanhado geral da trama. A força do espetáculo resulta dos bons elementos que o compõem. É perceptível a mão de mestre do diretor Naum Alves de Souza, também o conhecido dramaturgo dos desajustes no interior da doce tirania familiar. A música bonita e calma faz contraste com os momentos de fúria e exasperação. Pâmio revela maestria em dosar impulsividade e desalento ao encarnar diversos papéis: membros da família, chefes, mulheres e, no fundo e finalmente, o "mediano". Lamentável zé-ninguém que, via corrupção, ajuda a contaminar o presente e o futuro de um país. Comemora desta maneira seus 25 anos de respeitável carreira em um crescendo de emoção que ilumina Mediano. ServiçoMediano. 60 min. 14 anos. Sesc Pinheiros. Auditório (101 lug.). Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. 6.ª, 21 h; sáb., 19h30. R$ 3 a R$ 12. Até 6/6

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