Cinemas que fizeram delirar

O cine Marabá está sendo reativado. Li no Estadão de terça-feira. Claro, o centro da cidade jamais será o mesmo em matéria de salas de cinema. De qualquer maneira, é uma notícia feliz. O que se vê é uma retomada do hábito de ver filmes no cinema, o que, nos anos 80 e 90, parecia estar desaparecendo. Tanto que as grandes salas, as que fizeram de São Paulo a grande Meca, foram fechando uma a uma. As coisas mudaram, os centros da cidade no mundo decaíram, a superpopulação transformou usos e costumes, entraram em cena as videolocadoras, assistir a filmes da poltrona em casa ficou mais cômodo, não se enfrenta o trânsito, os flanelinhas, a ganância dos estacionamentos, a violência das ruas. Ver filmes em DVD modificou as atitudes, as pessoas pensam que estão na casa delas, conversam, comem, atendem a celulares, enfiam o pé na sua cadeira. Também não sei se isso é devido à má-educação, porque as pessoas andam cada vez mais insolentes e malcriadas, como diziam os antigos. Peça a alguém para ficar quieto no meio do filme e vai ter como resposta um palavrão, uma gargalhada ou a frase: os incomodados que se mudem. Ir ao cinema era um ritual. As sessões tinham horários fixos, iam das 14 às 22 horas. Aos sábados, meia-noite. A menos que fosse um road-show e então havia diferenças. Road-shows eram os grandes filmes como Amor, Sublime Amor (West Side Story), A Volta ao Mundo em 80 Dias, Ben-Hur, Os Dez Mandamentos, A Noviça Rebelde, destinados a ficarem meses em exibição. Uma vez, nos anos 50, vim de Araraquara com meu pai e fomos ao cine Ipiranga assistir Férias de Amor (Picnic), sucesso com Kim Novak e William Holden. Não me deixaram entrar. Estava de paletó, mas sem gravata. E eram 2 da tarde. Severidade absoluta. Se quer entrar, vista-se decentemente. Hoje, não se perde espectador. As pessoas entram de bermudão, camiseta, chinelão. Acho que sou antigo (ou seria careta?), jamais consegui ir ao cinema de bermuda, mesmo em dias de muito calor. Enfim, acabei vendo Picnic. Todos se referiam ao filme pelo título original americano. Como esquecer Kim Novak e William Holden dançando ao som da música Moonglow? Sensualíssimo na época, hoje é uma cena chocha. Também sei agora que Holden, um megagalã que morreu alcoólatra, não sabia dançar, não tinha a mínima noção de ritmo, foi um custo rodar a cena. Mais, por causa da censura daquele tempo, ele teve que depilar todo o peito. Por isso cinema é tão fascinante, é fábula, mentira. Verdade, às vezes. As pessoas vinham do interior e do restante do Brasil ver filmes aqui, conhecer as salas mitificadas. A tela do República, a maior da América Latina, para o cinemascope. No Comodoro havia o cinerama, a terceira dimensão, com aquela montanha russa e o povo gritando. Era elegante pagar mais para ir ao pulman do Ipiranga, ao qual se subia de elevador, com ascensorista de uniforme. Sensações eram o bar do cine Marrocos, um dos primeiros das salas de cinema. Ou as poltronas numeradas do Olido. Podíamos comprar ingresso com antecedência de semanas e meses. Não existia computador, era tudo na cadernetinha. E funcionava. Quando entrei no Metro pela primeira vez, fiquei embasbacado (estou usando termos do período). Uma decoração barroca. Ou seria rococó? Contaram-me que todos os Metros do mundo eram iguaizinhos. Assim como depois aconteceu com a cadeia de hotéis Hilton e hoje com o McDonald?s. Globalização já nos anos 30 e 40. Hilton me lembra Nick Hilton, um playboizinho, o primeiro marido de Liz Taylor. Esta é para quem lia a revista Cinelândia e Dulce Damasceno de Brito (não é, Agnes Cretella?), Zenaide Andrea ou Lyba Fridman. Aquele Nick, doido de pedra, era um antecessor familiar da Paris Hilton. Que família! Que genética! Hoje vocês precisam pensar velozmente, voar para trás para me acompanhar. No Jussara tínhamos todos os filmes franceses. Ali, vimos os peitos de Françoise Arnoul e a nudez total de Martine Carol. E a nouvelle vague também. Porém, acho que o Acossado do Godard passou em outro cinema, talvez no Coral, na Sete de Abril, que exibia filmes de arte ligados à Cinemateca. Em Acossado tivemos o primeiro grande mito cinematográfico intelectualizado da minha geração, Jean Seberg. Simone de Beauvoir não contava. Bem, anos antes veio (e se foi) o James Dean. Animado com o sucesso do cine Olido, o Paulo Sá Pinto criou o Rivoli ao repaginar o cine Ritz São João, inaugurado com noite black-tie e o filme A Volta ao Mundo em 80 Dias. Produção do Mike Todd que depois se casou com Liz Taylor e a cobria de diamantes. Todd, inventor do processo de filmagem Todd-AO, morreu num acidente de aviação. Liz pirou, na verdade surtou, e então tirou o Eddie Fisher de sua amiga Debbie Reynolds, depois chutou o moço para ficar com Richard Burton que, por sua vez, abandonou a esposa Sybil às traças. Ao deparar hoje com a dança das cadeiras de Ivete Sangalo, Luana Piovani, Suzana Vieira, e essa Isabeli Fontana que casa com o Castelli, descasa, casa com o Hawilla, descasa, namora o Rico Mansur e sai de fino, já vimos o filme, é tudo reprise. Percebo que nem falei do cine Rio Branco, monumental, atualmente uma concessionária de automóveis. Do Regina, hoje Hotel Fórmula 1. Do Premier, depois Mônaco, agora estacionamento. Do Bandeirantes, que era Art Deco e hoje abriga milhares de carros em seu bojo. Do Regência, na Augusta, hoje Faculdade. Do Picolino, também na Augusta, hoje churrascaria. Bem, o Astor na Paulista teve um destino nobre, virou a livraria Cultura. O Ritz Consolação é o HSBC Belas Artes. O curioso é que quase todos passaram pelo inferno astral, durante bom tempo tornaram-se salas pornôs, pornografia da brava, hardcore. Fechados, tiveram seu purgatório. Alguns, como o Marabá, recuperam a dignidade. Chega de delírio!

Ignácio de Loyola Brandão, O Estadao de S.Paulo

27 Março 2009 | 00h00

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