Cinema já subverte o mestre há um século

Desde a primeira versão para a tela, em 1909, Poe sofre nas mãos dos diretores

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

Há exatamente um século Edgar Allan Poe teve sua primeira obra adaptada para o cinema (O Poço e o Pêndulo, 1909) por Henri Desfontaines. Arquétipo do escritor disfuncional, ele teria mesmo de contar entre seus adaptadores gênios como Buñuel (que assinou o roteiro do filme dirigido por Jean Epstein em 1928, o clássico A Queda da Casa de Usher) e Fellini (que há 40 anos dirigiu Toby Dammit, episódio de Histórias Extraordinárias). Mas nem sempre Poe teve a mesma sorte. Cem anos depois do primeiro filme, o poeta e contista americano continua atraindo cineastas medianos, nenhum comparável a Buñuel e Fellini. O mais recente aventureiro é Sylvester Stallone. Decidido a provar que não carrega apenas uma montanha de músculos, Stallone promete para este ano a estreia de sua cinebiografia Poe, com roteiro assinado pelo ator. Ele mesmo é o diretor, depois que Kubrick, Polanski e até William Friedkin não se animaram com seu roteiro, enviado há muitos e muitos anos aos três cineastas.Stallone deve ter raciocinado: "Se Roger Corman fez todos aqueles filmes baseados em Poe, por que não eu?" Bem, é verdade que Corman foi o rei do filme "B", do horror "trash", mas sempre contou com a ajuda de criativos roteiristas - entre eles Richard Matheson e Robert Towne - desde que dirigiu seu primeiro Poe em 1960 (A Queda da Casa de Usher) e assinou na mesma década várias adaptações de obras do escritor (O Poço e o Pêndulo, O Corvo, A Máscara da Morte Rubra, Túmulo Sinistro). Matheson foi o roteirista da estreia de Spielberg no cinema, Encurralado (Duel, 1971). Towne assinou o roteiro de Chinatown, de Polanski. Já Stallone parte sozinho para a empreitada. Nada indica que saia bem dela. Matheson, ao menos, é um homem de imaginação. Como pouca coisa acontece em A Queda da Casa de Usher até o final, ele inventou para Corman sequências atmosféricas (uma galeria familiar vista com olhar freudiano)que traduzem bem a influência do comedor de ópio Thomas de Quincey sobre o perturbado Poe.Essa talvez seja a história de Poe mais vezes adaptada depois de O Corvo, não só para o cinema como na história da música. Debussy deixou uma ópera inacabada baseada em A Queda da Casa de Usher, que também inspirou o minimalista Philip Glass a compor sua versão, cuja première teve lugar em São Paulo há 20 anos. Era ruim como óleo de fígado de bacalhau. A versão de Debussy ganhou uma montagem recente (agosto de 2006, em Bregenz) dirigida pela inglesa Phyllida Lloyd, a mesma do filme musical Mamma Mia! do Abba, um nada recomendável cartão de visitas. Como não tinha muitos elementos para trabalhar a ópera, Phyllida fez uma collage de ópera e dança em que entram outras peças de Debussy, entre elas Jeux. Poe não tem mesmo sorte no palco.A considerar o que dele disse o ensaísta Daniel Hoffman, Poe não daria a mínima para essas adaptações. Hoffman defende que ele escrevia como se o mundo real fosse completamente irrelevante. No entanto, nenhuma outra obra teve um impacto tão grande sobre a literatura ocidental quanto a sua. Seus personagens autodestrutivos, agentes de uma literatura em processo de transfiguração, parecem criados como autorretratos de implicações psicanalíticas - e não é sem razão que sua galeria de personagens inclui tantos incestuosos e variações de mitos gregos. Neles, Poe se vê refletido e grita diante do horror que Dupin, o detetive que decifra, lhe inspira. Como não se aterrorizar diante da autoconsciência que levou Poe a oscilar entre o cérebro superior de um autômato e a ingenuidade de um narrador sem nome (William Wilson, ou Will-son, o filho da vontade, do desejo)?O caso de William Wilson é exemplar. Adaptado para o cinema por um grande nome da nouvelle vague, Louis Malle (Histórias Extraordinárias, 1969), o conto fala de um estudante arrogante que, incapaz de confrontar seu duplo - um outro com o mesmo nome e mesmos hábitos - foge dele como o Diabo da cruz, até trombar com o rival num baile de máscaras. Atingido por sua espada, o "outro" revela-se o próprio autor do crime. Poe era fascinado pela figura do doppelgänger - e por gêmeos, considerando os irmãos incestuosos Roderick e Madeleine de A Queda da Casa de Usher. William Wilson, claro, trata da questão do alter ego. O assassino suicida de Poe é mais que uma representação protofreudiana da parte do self que combate nossos desejos. O narrador - sem nome - é o duplo rival de que Freud trataria mais tarde. Malle entendeu que esse era o caminho correto para ser fiel à teoria antecipatória de Poe - a da inclinação para reprimir nossos desejos e emoções. Daí que Histórias Extraordinárias (lançado em DVD no Brasil) continua, 42 anos depois, a melhor adaptação do escritor para o cinema.O cinema ainda está devendo uma boa adaptação do seu mais ambicioso livro e único romance, A Narrativa de Arthur Gordon Pym (1838). O cineasta indicado, claro, seria Francis Coppola, considerando seu Apocalypse Now e admitindo que o verdadeiro tema do livro não são as aventuras e desventuras de um homem que se vê às voltas com a natureza hostil. É uma história de horror da própria espécie, de um ser exposto às intempéries para descobrir sua identidade e empreender uma jornada de autodescoberta e luta contra o ego. O leitor fica sabendo que os últimos capítulos se perderam com a morte do narrador - cabendo, naturalmente, ao primeiro imaginar o que Pym e seu amigo Peter teriam encontrado diante da brancura total - o território do indiferenciado - em que mergulham no final dessa aventura. Uma parábola e tanto sobre o sentido da existência (para os religiosos) e uma reflexão sobre o nada (para existencialistas). Pena que o cinema tenha reduzido a dimensão filosófica de Poe. Esse é o verdadeiro horror.

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