Cinema de sentimentos e ideias

Obra do diretor italiano Valerio Zurlini, que está saindo no País, explora a impossibilidade de completude que assola a existência

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Uma cinematografia que teve na mesma geração gigantes como Fellini, Antonioni e Visconti pode deixar à sombra criadores de máxima importância. Foi o que aconteceu com Valério Zurlini (1926-1982) no âmbito do cinema italiano e no exterior. Não que seja desconhecido. É referência para muitos críticos e cineastas - por exemplo, o diretor Carlos Reichenbach tem no "cinema de sentimentos" de Zurlini uma de suas referências maiores. Mas um público mais amplo, e interessado em cinema de arte, talvez ainda o conheça de maneira incompleta. Daí a importância do lançamento de sua obra ficcional completa - ele também fez documentários - em DVD, que está sendo realizada pela Versátil. Alguns títulos já saíram; outros estão no cronograma (veja quadro). Apenas um - mas justamente a sua obra-prima, Dois Irmãos - ainda se encontra pendente de direitos a serem negociados com os produtores. Resolvida essa questão, em breve teremos disponível a filmografia completa do autor italiano.Veja trechos de filmes de Valerio Zurlini Uma obra relativamente pequena - apenas oito longas-metragens - porém de alta densidade. Zurlini, advogado de formação, era muito ligado à literatura, de Manzoni a Pavese e Pratolini. E foi com a adaptação de O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzatti, que fechou sua obra. Este último longa-metragem ocupa uma posição estratégica em sua filmografia, porque pode passar por um resumo das preocupações estéticas e filosóficas do diretor. Um "testamento", como ocorre qualificar a última obra de qualquer criador, sua palavra final, embora talvez ele ainda tivesse tantas outras a dizer e vários projetos na gaveta, que o tempo não lhe permitiu realizar. De qualquer forma, a obra de Zurlini apresenta uma inteireza sem igual, uma sensação de completude, de coisa realizada. O Deserto dos Tártaros pode ilustrar essa impressão com seu rigor formal, seu ascetismo desesperançado, no qual o diálogo de Buzzatti com Kafka e com Beckett se vê expresso em imagens. Na anti-história (porque pouco de fato ocorre) desses soldados que esperam o ataque de um inimigo que nunca chega e talvez nem exista está toda uma visão de mundo do autor. E talvez uma metafísica, de fundo religioso e filosófico. A vida é espera de algo que muito provavelmente não virá e todas as esperanças talvez sejam ilusões, como exércitos fantasmas. Como ilusório é o militarismo, a aspiração a uma carreira militar ou civil, a busca da felicidade ou mesmo da serenidade. Essa temática já estava presente naquele que é um dos mais extraordinários filmes de Zurlini, A Primeira Noite de Tranquilidade. O título diz tudo. Faz alusão a um verso de Goethe - "A morte, a primeira noite de tranquilidade." E resume a trajetória do professor Daniele Dominici vivido por Alain Delon, um desterrado da vida que se apaixona por uma aluna extraordinariamente bela e de passado misterioso, Vanina (Sonia Petrova). Aqui temos o tal "cinema de sentimentos" em sua plenitude. Quer dizer, quando Zurlini força o tom a ponto de levá-lo próximo do abismo do sentimentalismo sem jamais nele cair. E o que o mantém no eixo é a força segura de suas matrizes culturais, uma concepção pictórica da arte cinematográfica e a dimensão espiritual da transitoriedade das coisas. Uma ideia, ou melhor, uma sensação difusa, que passa de filme a filme e que se pode resumir numa frase: a impossibilidade da completude, que é a fantasia fundamental do casal. Delon, com seu sobretudo mal ajambrado, ar blasé e infeliz é protótipo da insatisfação, alguém cuja carência existencial é ostensiva. Apesar de toda a sofisticação de seu mal-estar, é no mais banal dos refúgios que ele vai buscar abrigo - nos braços do sexo oposto, em especial quando este vem sob a imagem de Sonia Petrova, atriz de beleza quase sobrenatural. Não será surpresa se o resto da história se incumbir de desconstruir essa forma ilusória da completude. Não que Zurlini seja pessimista ou cínico. Apenas constata que o sentimento oceânico de quem se sente apaixonado, e portanto completo, não pode ser senão temporário, por definição. Uma cena fundamental desse filme é quando o professor Dominici mostra à sua aluna um afresco de Piero della Francesca, como se meditasse sobre a eternidade e a perfeição em contraste com a transitoriedade e fragilidade do destino humano. Esse impasse do casal está presente também em Verão Violento, segundo longa de Zurlini. Nele, o diretor enlaça os planos do indivíduo e da História, abordando o ano traumático de 1943, quando a Itália assiste aos últimos dias do regime fascista de Mussolini. Vive-se o verão em Rimini com personagens que pertencem à juventude burguesa, pouco preocupada com o andamento da guerra. Jean-Louis Trintignant é Carlo, filho de um prócer fascista, mantido longe da linha de combate pela influência paterna. Ele se apaixona por uma bela viúva de guerra, Roberta (Eleonora Rossi Drago). Vivem romance tórrido, ao largo das circunstâncias, até que o cerco da História vai sendo apertado em torno deles. Como dizia Trotski, você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você. É o que acontece com Carlo, e ele o descobre da maneira mais surpreendente, quando parece próximo a realizar seu idílio amoroso com Roberta em lugar seguro e paradisíaco. Neste filme, Zurlini reivindica uma formação baseada em Tolstoi para justificar a costura entre eventos pessoais e históricos. No entanto, o filme foi acusado de colocar ênfase mais nos primeiros que nos segundos. É o que escreve, por exemplo, Lino Micciché em seu ensaio clássico Cinema Italiano - gli Anni ''60 e Oltre (Marsílio Editori, 2002). Micciché, crítico de (in)formação marxista, diz que o filme revela influência neorrealista em seu estilo, ainda que o "interesse do cineasta andasse mais na direção da temática individual do que da História. Ou melhor, privilegiando a temática sentimental sobre a social e política". É uma maneira de pensar. Mas parece que poucas vezes no cinema os destinos individuais e coletivos de um povo foram entrelaçados de maneira tão orgânica quanto neste filme. Em seu trabalho seguinte, A Garota com a Valise, Zurlini volta-se de maneira mais explícita e exclusiva ao lado pessoal - e à temática do casal. Jacques Perrin é Lorenzo, garoto de 16 anos que conhece Aida (Claudia Cardinale), mulher mais velha e fascinante. Aida é uma cantora de cabaré e fora enganada pelo irmão mais velho de Lorenzo, o playboy Marcello (Corrado Pani). Entra aqui um subtema interessante - além da paixão juvenil, o desejo de reparar a falta do irmão. Trata-se de um filme repleto das melhores características de Zurlini: uma concepção rigorosa do plano cinematográfico em seu diálogo permanente com a pintura, e a manipulação perfeita do ritmo e da intensidade emocional. No mais recente dos títulos lançados, Mulheres no Front, mais uma vez a guerra é panorama da história, baseada em romance de Ugo Pirro. Nela, um grupo de mulheres é conduzido para um bordel de soldados italianos na Albânia. As mulheres (Anna Karina, Marie Laforêt e Lea Massari, por exemplo) são tratadas ora como gado ora como se compusessem, de fato, um pelotão de soldados entre outros, sob comando do tenente Martini (Tomas Milian). É um filme inédito no Brasil, inclusive no cinema. Como inédita é a abordagem de Zurlini, ao colocar em contato gente muito diferente, e ver como interagem. No espírito e na carne, amém.Oito Longas E Um Lugar Na História 1954 - Quando o Amor É Pecado (o DVD sai em setembro)1959 - Verão Violento *1960 - A Moça com a Valise *1962 - Dois Destinos (sem data de lançamento)1964 - Mulheres no Front (junho)1968 - Sentado à Sua Direita (agosto)1972 - A Primeira Noite de Tranquilidade *1976 - O Deserto dos Tártaros *

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.