Cineasta registra o ocaso de um ídolo popular, e o faz com grande delicadeza

Estranho é o cinema. Podemos ver um filme que nos desagrada, mesmo que o personagem seja um dos nossos ídolos. Ou, pelo contrário, podemos curtir, e muito, um filme que "fala" de alguém que não admiramos. É um pouco o caso deste Waldick - Sempre no Meu Coração.A atriz Patricia Pillar, em sua estreia no documentário, filma o cantor Waldick Soriano no ocaso da vida - e o faz com infinita delicadeza. A imagem é implacável. Vemos que Waldick está doente. Ao mesmo tempo, temos um vislumbre de sua vida complicada. Noite, bebida, mulheres, problemas com o filho. Há aí uma exposição que, em momento algum, soa gratuita. Pelo contrário: ela revela o personagem. Não porque mostre seu ângulo melhor, mas porque coloca em perspectiva a sua humanidade. Mais uma vez: sem forçar a barra jamais.Porque Patricia evita também o outro lado da coisa: tomar um personagem cheio de arestas e, para santificá-lo, aplainar tudo o que não cabe no lugar-comum do bom comportamento. Está cheio de filmes assim por aí, nos quais todo mundo é bonzinho, não tem defeitos e, se os tem, servem apenas para melhor realçar suas verdadeiras qualidades. Com Waldick não há isso. Ele é machista, ostenta suas opiniões sem qualquer pudor e nem sem importa com o que possam pensar do que diz e faz. A câmera registra. E, ao registrar, exibe a contradição de que é tecido um ser humano. Qualquer um. Do anônimo ao cantor de sucesso que ele foi. ServiçoWaldick, Sempre no Meu Co-ração (Brasil/2008, 58 min.) - Documentário. Dir. Patrícia Pillar. Livre. Cotação: Bom

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