Cinco faces da diversa cena do Chile

Entre elas, o evento permite conferir a tecnologia de Sin Sangre, as formas animadas de El Capote e o minimalismo de Neva

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2009 | 00h00

Sobre o palco, três homens conversam dentro de um carro conversível numa autoestrada. Dirigido por um deles, o veículo caminha na direção do espectador, a paisagem passa depressa, assim como as nuvens no céu que muda de cor indicando passagem de tempo. Os atores são reais, o carro parece ser, a paisagem certamente é projeção. A cena abre o espetáculo chileno Sin Sangre, que passou pelo Festival de Curitiba, e estreia hoje no Sesc Vila Mariana. "Queremos fundir as linguagens do cinema e do teatro até o ponto de provocar confusão no espectador. Até que ele não consiga mais distinguir o que é corpóreo e o que é virtual", diz o diretor chileno Juan Carlos Zagal. Um dos três fundadores do lendário grupo La Troppa, com o qual já veio ao Brasil quatro vezes, com espetáculos de forte impacto visual como Viagem ao Centro da Terra, Zagal fundou com Laura Pizzarro a companhia Teatrocinema em 2004, quando o La Troppa se desfez depois de 18 anos de existência. O nome do grupo expressa a estética buscada, espécie de cinema tridimensional sem necessidade de óculos especiais, pela fusão das duas linguagens. Sin Sangre chega ao Brasil depois de ter percorrido dezenas de países e ter sido traduzido em 7 idiomas. "Já fizemos com legendas duplas, em mandarim e inglês", diz Zagal. "No mundo inteiro sempre ouço que nossa linguagem é absolutamente inovadora, jamais vista antes."Zagal defende o uso de toda a tecnologia disponível como ferramenta para provocar novas leituras sobre um tema. "O espetáculo privilegia a ação para falar de uma tragédia quase sem solução", diz. O texto tem como base a novela homônima do italiano Alessandro Baricco. A ação se passa num país não nominado e tem como personagens centrais duas pessoas que sofreram, no passado, a violência de uma guerra em lados separados. "É possível romper a cadeia de ressentimentos e alcançar o perdão, sem sangue?" Narrativa, atuações, figurinos, cenografia, tudo causou estranhamento nas apresentações em Curitiba pelo tom bizarro, artificial, interpretações enrijecidas. O propósito, talvez, seja revelar a banalidade dessa cadeia de vingança. Logo na primeira cena, enquanto se preparam para matar um fazendeiro, dois homens armados discutem sobre os motivos de a hiena rir. Citação a Pulp Fiction, de Tarantino? Entre eles há um jovem, o tal personagem que mais tarde vai encontrar a filha do fazendeiro, única que se salva da chacina daquele dia, escondida num alçapão (virtual). "Essa peça fala do lado escuro do ser humano."Além das três sessões de Sin Sangre, o público terá oportunidade de ver quatro outros espetáculos chilenos, de estéticas diferenciadas escolhidos para abrir o projeto América em Recortes. "O objetivo é lançar o olhar sobre o teatro latino-americano sem o risco da dispersão de um grande festival", diz Maria Thereza Magalhães, uma das curadoras do Sesc-São Paulo. Outros países virão, talvez a Argentina seja o próximo, no segundo semestre. "Foi uma seleção feita em equipe e pensada para ir na contracorrente da ideia do teatro latino-americano como bloco homogêneo. Buscamos a diversidade de estéticas - bonecos em El Capote, a tecnologia inovadora de Sin Sangre, o teatro apoiado em texto e ator de Neva." Maria Thereza ressalta ainda a presença de grupos de diferentes tempos de estrada, desde os experientes criadores da companhia Teatrocinema até a recém-fundada Cia. La Resentida, que apresenta Simulacro. "Eles fazem crítica vigorosa e sarcástica à sociedade chilena contemporânea e à falta de perspectivas dos jovens." Algum aspecto comum? "Seria leviano de minha parte tentar fazer essa avaliação, mas talvez a violência e a guerra como tema, num resgate de antigas feridas. Talvez a presença de Pinochet vivo fosse um peso, mas é só impressão individual."Tema para o debate previsto na mostra. Entre os participantes, Soledad Lagos, do projeto Escola de Espectadores. "É um trabalho interessante de contextualização das montagens para uma melhor fruição."ProgramaçãoSIN SANGRE105 min - 16 anosHoje, amanhã, 21 hDomingo, 18 hSesc Vila MarianaR. Pelotas, 141, tel. 5080-3000NEVA80 min - 12 anosTerça, 21 hTeatro Sesc Anchieta Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000DICIEMBRE70 min - 12 anosQuarta e quinta, 21 hSesc ConsolaçãoRua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000 EL CAPOTE50 min - 8 anosDias 11, 20 h, e 12, às 16 h e 18 hTeatro Sesc IpirangaRua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000SIMULACRO 75 min - 16 anosDias 17, 18 e 19, 21 hSesc Avenida PaulistaAv. Paulista, 119, tel. 3179-3700 Ingressos para todos os espetáculos, R$ 20DEBATEA Atual Produção Chilena e Sua Especificidade no Contexto Latino-Americano, com Guillermo Calderón, autor e diretor; Soledad Lagos, pesquisadora e dramaturgista; Silvana Garcia, pesquisadora e professora, e Evelyn Campbell, representando o festival Santiago a Mil. Segunda, 20 h. Sesc Consolação, grátis

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