Cientista nega tese de filme, e quem liga?

Anjos e Demônios é a nova, e elogiada, parceria de Ron Howard e Tom Hanks

Luiz Carlos Merten, ROMA, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Presidente da Federação Mundial de Cientistas e emérito da Universidade de Bolonha, Antonio Zichichi tem, mais do que ninguém, autoridade para desmontar o castelo de cartas sobre o qual se assenta Anjos e Demônios, o novo thriller de Ron Howard adaptado de Dan Brown, com Tom Hanks na pele do semiólogo Robert Langdon, que estreia hoje. Zichichi, religioso e antidarwiniano, foi o homem que descobriu a antimatéria em 1965. Segundo ele, sua descoberta não pode ser roubada e muito menos contida num recipiente, mas é isso que ocorre em Anjos e Demônios, a nova parceria com a qual a dupla Howard/Hanks espera superar a receita bilionária do O Código da Vinci. Veja o trailer de Anjos e DemôniosEmbora arrasado pelos críticos, o thriller anterior arrebentou nas bilheterias, é verdade que no mercado externo mais do que nos EUA. O Brasil foi um dos países em que o Código andou muito bem. Se qualidade tem algum reflexo na bilheteria, então Howard e Hanks podem contar com um sucesso maior. O novo filme é melhor, como thriller. O roubo da antimatéria desencadeia uma caçada humana com momentos eletrizantes e leva o Vaticano a pedir ajuda a um homem no qual não confia, mas do qual precisa, Robert Langdon. Com seu conhecimento dos símbolos religiosos, só Langdon poderá seguir a trilha sugerida pelos illuminatti (sociedade secreta do século 15), que parecem estar por trás de todo o episódio. Tal é o ponto de partida de Anjos. Para deixar o leitor mais informado sobre o filme que vai ver, é bom acrescentar que a Igreja Católica, em Anjos, está particularmente vulnerável porque o papa morreu e o conclave está reunido em Roma, para escolher seu sucessor. Howard e seus roteiristas (Daniel Koepp e Akiva Goldsman) também tomaram uma liberdade - embora Anjos e Demônios tenha sido escrito antes de O Código Da Vinci, eles transferiram a ação para depois.O repórter do Estado encontra-se com Howard no Castel Sant?Angelo. A entrevista, desta vez, ao contrário do encontro com Tom Hanks, não é individual, mas é como se fosse, porque o outro jornalista que dela participa é da Indonésia, no outro lado do mundo, e não está muito interessado no encontro. Ele preferia estar falando com Ewan McGregor, que faz o camerlengo (cardeal que desempenha, interinamente, as funções do papa), e não com o diretor. O repórter leva a Howard o protesto do cientista que inventou a antimatéria. "Sei disso, mas tivemos um conselheiro científico que disse que, se fosse possível, seria do jeito como apresentamos. Anjos e Demônios não é um documentário científico nem religioso. É uma ficção, mas tudo o que estamos mostrando é plausível, e isso faz toda a diferença", ele diz.O diretor não esquenta a cabeça por causa disso. Para ele, Anjos é um filme de ?bomba? e o que Robert Langdon faz é correr para desarmá-la. Ele se mostra mais interessado pelos illuminatti. "Quando li Anjos e Demônios pela primeira vez, foi o que realmente ficou comigo. Essa sociedade secreta perseguida pela Igreja tinha entre seus integrantes Galileo Galilei e Bernini. O que aconteceu com eles? Os illuminatti existem até hoje? Meu Deus, se eu não me interessasse por isso, com o que mais iria me interessar?" Na trama de Anjos e Demônio, os illuminatti sequestram quatro cardeais, que ameaçam eliminar, um após o outro. É para evitar que isso ocorra que o Vaticano chama Robert Langdon, e ele tem a ajuda de uma cientista - Vittoria, interpretada pela israelense Ayelet Zurer -, que o acompanha na sua via-crúcis através de Roma. Só ela poderá desarmar o mecanismo que explodirá a antimatéria, dissolvendo o Vaticano em luz, como ameaçaram, há séculos, os illuminatti.Howard dispara sua resposta, quando o repórter pergunta, afinal, o que havia de tão interessante para que ele voltasse a Dan Brown e Robert Langdon. "Basicamente, as questões que Dan levanta são originais e provocantes, mas o que realmente pesou foi que Anjos é muito mais cinematográfico do que O Código." Não durante a entrevista, mas mais tarde, em pleno tapete vermelho, Howard confessou à imprensa brasileira que gosta muito do Código e, se tivesse de fazer o filme de novo, "não mudaria nada". A colaboração com Tom Hanks é outro fator de enriquecimento. É o quarto filme que fazem juntos, após Splash - Uma Sereia em Nossa Vida, Apollo 13 e O Código. "Tom é um ator que soma intelecto, curiosidade e senso de humor. Tudo isso se ajusta ao personagem de Robert Langdon. Ele fica mais rico e profundo. Minha experiência me diz que o espectador não vai desgrudar o olho dele."O próprio Dan Brown participou da coletiva de lançamento de Anjos e Demônios, em Roma. Embora solicitado pela imprensa, ele nada antecipou sobre o novo livro, que sai em setembro. O que disse é o que já está em seu site. The Last Symbol, O Último Símbolo, narra a terceira aventura de Robert Langdon, numa narrativa que dura exatas 12 horas. Segundo o escritor, Howard e Hanks poderão fazer de O Último Símbolo um filme ?terrific? (incrível, maravilhoso). O que pensa o diretor? "Se Dan falou está falado. Não temos nada acertado, apenas uma opção pela preferência, mas se o livro for tão elétrico quanto Anjos e Demônios, acho que será impossível resistir à tentação de narrar mais uma aventura de Robert Langdon." O que faz dele um personagem tão atraente para o diretor? "Robert não é um herói convencional. Ele é mais um mestre da dedução como Sherlock Holmes. Numa civilização da imagem, como a nossa, vive de identificar e interpretar os signos. Movimenta-se muito, mas quase não age e certamente não é violento. Nesse sentido, ele está na contracorrente do cinema atual. Seu sucesso é a prova de que existe um público que quer informação, não apenas emoção." ServiçoAnjos e Demônios (Angels & Demons, EUA/ 2009, 140 min.) - Drama. Dir. Ron Howard. 16 anos. Cotação: Bom

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