Cidade é posta na berlinda em um casarão no centro

Labirinto Reencarnado tem linguagem lúdica e crítica para falar de arquitetura

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

Num casarão na Alameda Cleveland, no bairro Campos Elísios, no chamado centrão, está instalada a Cia. Pessoal do Faroeste, dirigida por Paulo Faria. Quem acompanha a trajetória desse grupo fundado em 1998 com o espetáculo Um Certo Faroeste Caboclo sabe que a escolha do local não foi aleatória, movida por aluguel barato, mas, sim, ética e estética, tem a ver com o trabalho que desenvolvem. Quem não conhece vai poder constatar a partir de sábado, com a estréia do novo espetáculo da trupe, Labirinto Reencarnado, que tem texto e direção de Paulo Faria e é a última peça de um projeto intitulado Trilogia Degenerada: A História de São Paulo através de Um Casarão em Campos Elísios.Um dia na vida de um cortiço paulistano era o tema da primeira, Re-bentos, também com texto de Faria, que estreou em 2002 e tinha dramaturgia inspirada no mito grego Eros e Psiquê. Os Crimes do Preto Amaral, a segunda, de 2006, baseava-se na história real de um negro, filho de escravos, acusado de serial killer e também tinha como fonte de inspiração a clássica história do músico Orfeu e sua amada Eurídice, a quem ele vai buscar no mundo dos mortos.''A cidade de São Paulo é a protagonista de Labirinto Encarnado'', diz Paulo Faria. Depois de pesquisar os reflexos da teoria da ''eugenia'' nas relações sociais, o grupo volta no tempo, até o período da 2ª Guerra, para analisar e entender por que esse bairro de Campos Elísios, por exemplo, antes nobre, hoje provoca medo nas pessoas. ''Passei a morar na Cleveland e é como uma cidade do interior, mas quem não conhece teme vir aqui'', diz Paulo. Em Os Crimes do Preto Amaral eles já haviam mostrado como as idéias de higienização e saneamento estavam imbricadas com as teorias racistas. Agora, em Labirinto Reencarnado, os grupo analisa a influência dessas mesmas idéias na geografia da cidade.Não há um excesso de abordagens sobre a 2ª Guerra? ''Sobre esse período no Brasil há documentação, mas quase nada de ficção, sobretudo teatral'', diz Faria. Importante fonte de pesquisa foi o livro Guerra sem Guerra, tese de doutoramento de Roney Cytrynowicz. ''No Brasil, havia carestia e filas creditadas à guerra - na verdadeum paulistano apaixonado por essa cidade. É muito prazeroso transformar o meu olhar sobre ela.''Serviço Labirinto Reencarnado. 80 min. 12 anos. Sede Faroeste. Al. Cleveland, 677, tel. 3362-8883. Sáb. a 2ª, 18 h. R$ 10. Até 28/7

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