Cia. Borelli investiga: quem é o artista da fome do novo século?

Grupo encena seu 15.º espetáculo, baseado em obra de Kafka que continua atual

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

10 de julho de 2008 | 00h00

Cinco pessoas taciturnas, trajando chapéus, paletós e calças pretas, observam um homem frágil de roupa branca, deitado no centro de uma roda. Enquanto alguns deles parecem estar hipnotizados, sem conseguir desviar o olhar daquela figura, outros apenas devotam um pouco de sua atenção quando ele é escorraçado, relegado à condição de um animal. Esse homem representa o jejuador, o artista da fome, retratado na obra homônima de 1922 de Franz Kafka e que agora é levado ao palco pela Cia. Borelli. O espetáculo abre hoje a Mostra (In)dependente de Dança?, que ocorre até o dia 10 de agosto no Espaço Maquinaria.Desde 2000, o grupo estuda e representa as obras que julgam mais relevantes do universo kafkiano - já montaram Kasulo e A Metamorfose, em 2002, O Abutre e O Processo, em 2003, Carta ao Pai, em 2006, até chegar a uma espécie de síntese em Kafka in Off, no ano passado. Artista da Fome, que o grupo vem se dedicando à montagem desde janeiro, é o 15º espetáculo em pouco mais de uma década de existência da Cia. Borelli. E o que mais fascina o elenco é o fato de a obra continuar atualíssima, mesmo tendo sida escrita há mais de 80 anos. ''Queremos promover essa discussão sobre o que a arte está significando hoje em dia: o que é ser artista no mundo e no Brasil'', diz o diretor Sandro Borelli. ''As suas melhores habilidades hoje não significam nada ou cada dia valem menos'', complementa.A cultura da imagem, liderada por celebridades momentâneas, a revolução do descartável sobre todas as coisas - inclusive o ser humano - e a conseqüente anulação de valores éticos foram alguns dos pontos discutidos entre os integrantes da companhia durante o processo de montagem do Artista da Fome. Em ensaio acompanhado pelo Estado foi possível notar um resultado denso feito de movimentos enxutos, que acompanham a trilha de ritmo cadenciado de Gustavo Domingues - um trabalho minimalista, que não faz uso de muitos recursos, e possui mais elementos teatrais do que referentes à dança.Na maioria dos trabalhos realizados pela Cia. Borelli até então, os protagonistas de cada obra eram encenados por quase todos do elenco, durante uma mesma apresentação. Agora, o artista da fome é interpretado por um único bailarino (Edson Calheiros) do começo ao fim, enquanto os outros se revezam nos papéis de apedrejador, incentivador ou simples observador. ''Pensamos em deixar o público livre para transitar, mas preferimos ''enjaulá-lo'' também'', conta Borelli.A dualidade da personalidade de todos os personagens ali representados foi um dos maiores desafios do grupo: era fundamental encontrar o equilíbrio entre a força e a imponência do artista da fome e em relação a ele. Para isso, experimentaram diversos movimentos em busca de células coreográficas que mais bem representassem o que está sendo dito em uma das últimas obras escritas por Kafka, cuja essência pode ser resumida neste trecho: ''Nas últimas décadas o interesse pelo artista da fome diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome; a participação aumentava a cada dia de jejum (...) nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças.''Serviço Mostra (In)dependente de Dança? Espaço Maquinaria (80 lug.). Rua 13 de Maio, 240, telefone 3259-7580. De 5.ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 10. Até 10/8

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