Chuck Berry é o caixeiro-viajante de sua própria lenda

Um dos inventores do rock?n?roll, de 83 anos, terá o baterista brasileiro Samuel Correa na banda da apresentação de hoje

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

19 de agosto de 2009 | 00h00

O que um dos inventores do rock?n?roll, aos 83 anos, faz por aí pelo mundo cruzando os céus e as estradas em voos comerciais e ônibus para levantar uns trocados? Péssimos negócios na juventude, certamente - e muito sufoco com o fisco, seguramente. Veja imagens do show do ano passadoEm 1955, Charles Edward Anderson Berry tornou o hit Maybellene uma espécie de incêndio juvenil, espalhando os primeiros pressupostos daquilo que viria a ser conhecido universalmente como rock and roll. De lá para cá, tornou-se uma espécie de caixeiro-viajante de sua própria lenda.Menos de um ano após seu último show aqui, no HSBC, eis que retorna o velho Chuck Berry, agora ao Via Funchal. Sua banda é curiosa: o baixista (James Lee Marsala) parece um daqueles corretores que se oferecem para comprar seu carro ali na Barão de Limeira. O tecladista (Robert Johnson Lohr) é um redneck típico. O guitarrista (seu filho, Charles Jr.) é um mestre-de-cerimônias. O baterista é emprestado - trata-se do brasileiro Samuel Correa (no ano passado, era outro brasileiro, Maguinho Alcântara).É parte da mística do velho Chuck. Durante anos, ele viajou pelo mundo carregando apenas sua guitarra Gibson, confiante no fato de que poderia contratar uma banda que conheceria suas músicas em qualquer lugar que desembarcasse (Bruce Springsteen e Steve Miller estiveram entre esses que foram seus escudeiros de ocasião)."Eu entro na net, baixo lá as coisas que ele vai tocar, e depois vou firmando. Eu toco pela parte prática, não teórica. Além do mais, são coisas que eu ouço desde a minha infância, que o mundo inteiro conhece", disse anteontem ao Estado o baterista fluminense Samuel Correa - que já acompanhou um time eclético, que vai de Zeca Pagodinho a Gloria Gaynor, de Wilson Simonal a Jane (a mulher do Herondy)."As gravadoras brasileiras estão marcando bobeira: o genial guitarrista Chuck Berry, cuja música foi enviada ao espaço na nave norte-americana Explorer (como uma mostra do som do planeta Terra para os alienígenas), não tem nenhum disco em catálogo por aqui. Já era tempo de editarem alguma coisa - nem que fosse um the best of. Afinal, carinhas como John Lennon e Keith Richards não cansam de dizer ao mundo que devem tudo o que sabem de música ao genial guitarrista black dos anos 50", escreveu em 1979 um dos expoentes da new wave brasileira, Julio Barroso, na antiga revista Pop.O show de Chuck Berry é sempre igual. A roupa é a mesma, a duração do show (ele nunca dá bis, nunca canta um minuto além da uma hora regulamentar), o repertório. Foi assim em Jaguariúna, em 2002, foi assim em 2008, será assim esta noite. Poderia ser um pé no fígado, mas não: é bacana, é alto astral. No grand finale, o guitarrista e cantor iça dezenas de garotas ao palco, e quando se vai vai para não voltar. O filho de Chuck então apresenta a banda, e quando chega ao "homem da guitarra", informa ao público que aquele é o autor de Roll Over Beethoven e outros 274 hits.Boa parte desses hits comparecem ao show: Memphis Tennessee, School Day, Wee Wee Hours, Oh Carol, Sweet Little Sixteen, C?est la Vie, Key to the Highway, Rock and Roll Music, Johnny B. Goode, My Ding-a-Ling, e por aí vai. O homem não é muito bem-humorado, é até meio carrancudo às vezes. Toca como quem está com pressa de pegar a grana e sair. Mas o vozeirão negro, o jeito de espancar a guitarra, as piadas prontas, estão acompanhadas de gestos que denunciam uma testemunha do DNA da música."Elvis, na verdade, era uma encarnação televisiva de Chuck Berry, que adentrou a sala de jantar da cultura ocidental, com seu gingado insolente que mudou os costumes de todas as futuras gerações", escreveu de novo o iconoclasta Julio Barroso na revista Somtrês, em 1981, voltando ao tema chuckberryano.Chuck Berry é um sobrevivente. Está espalhado por todo canto. Está em Hollywood, na cena impagável do filme De Volta para o Futuro, quando o personagem Marty McFly toca uma música sua no baile da escola muito antes de ele a compor. ServiçoChuck Berry. Via Funchal (3.000 lug). Rua Funchal, 65, Vl. Olímpia, 2198-7718. Hoje, 21h30. R$ 100 a R$ 350

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