Christensen, o grande homenageado do 16.º Cinesul

Evento no Rio promove retrospectiva do diretor que filmou em vários países e personifica ideal do cinema latino-americano

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

Desde terça-feira, o Rio abriga o 16º Cinesul - Festival Ibero-Americano de Cinema e Vídeo, que ocorre em diversos pontos da cidade (Centro Cultural Banco do Brasil, Cinemateca do MAM e nas salas PontoCine). Como todo ano, o festival é formado por uma mostra competitiva de documentários e outra de ficções. O Brasil participa da primeira com Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, sobre o empresário que ajudou a financiar a repressão, durante o regime militar - o filme já foi premiado no É Tudo Verdade, em abril -, e da segunda com Simples Mortais, de Mauro Giuntini. Entre as mostras paralelas, há uma que coloca o foco na Espanha e outra, Bossas Musicais, que inclui homenagem aos Titãs. Há também a retrospectiva, que privilegia a obra de Carlos Hugo Christensen.Nascido na Argentina, Christensen se fez brasileiro e aqui morreu, há dez anos. Seu último filme foi Casa de Açúcar, de 1996, que não chegou a concluir. Ele se havia iniciado mais de 50 anos antes na Argentina, por volta de 1940. Dirigiu muitos melodramas e, por meio deles, foi homenageado no Festival de Três Continentes de Nantes, em 1996. Em seus filmes, percebe-se uma vontade de transgressão - Safo, com a Greta Garbo portenha, Mecha Cruz, foi o primeiro filme argentino a mostrar beijo na boca e El Angel Desnudo revelou o primeiro (nu) de costas do cinema do Prata; O Menino e o Vento e A Intrusa, que fez no Brasil, carregam sugestões de homossexualismo.Christensen filmou também no Peru, no Chile e na Venezuela. No País foi, acima de tudo, um adaptador. Filmou duas vezes Anibal Machado (Viagem aos Seios de Duília e O Menino e Vento) e, em Crônica da Cidade Amada, viu o Rio pelos olhos de diversos cronistas (Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, etc.). Em 1939, adaptou Jorge Luis Borges em A Intrusa, sobre a paixão de dois irmãos tropeiros pela mesma mulher. O filme é muito bem-feito, mas, se há uma intrusa nessa história, não é a mulher e sim, a suntuosa fotografia que estetiza a paisagem bárbara. Christensen foi sempre atraído pelo apuro técnico. Em 1953, La Balandra Isabel Llegó Esa Tarde, que rodou na Venezuela, ganhou um prêmio de fotografia em Cannes. É uma amarga ironia que tenha encerrado sua obra com um filme incompleto, mas também pode ser uma metáfora do seu sonho - irrealizado? - de perseguir uma identidade filmando por toda a América Latina. Christensen queria ser um autor, e sério, mas o artificialismo compromete seu cinema.

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