Choque de realidade no universo da animação

O excepcional Valsa com Bashir, de Ari Folman, tem tudo a ver com o filme de Avi Mograbi que foi destaque no Festival Internacional de Documentários

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2009 | 00h00

Animação, o formato documentário, a guerra contra os palestinos - tudo aproxima Valsa com Bashir, de Ari Folman, de Z32, de Avi Mograbi, como, aliás, destacou o próprio cineasta israelense homenageado do É Tudo Verdade, cuja 14ª edição chega ao seu final, neste fim de semana. Mograbi está em São Paulo, onde participou ontem pela manhã da 9ª Conferência Internacional do Documentário, que este ano discutiu o documentário engajado, do qual ele é uma das estrelas, em todo o mundo. No filme de Mograbi, um soldado israelense, cuja identidade é protegida por uma máscara, confessa que matou civis palestinos (e teve prazer fazendo isso), durante uma operação de represália do Exército de Israel. No de Ari Folman, o diretor exorciza uma experiência dele mesmo no Exército israelense, também no combate aos palestinos.   Veja trailer do Valsa com BashirO próprio Mograbi situou a diferença entre os dois filmes - no de Folman, o documentário de animação expia um trauma do autor; no dele, o que está em discussão é a responsabilidade social de todos, do soldado, do cineasta e do espectador. Você não tem mais possibilidade de ver Z32 no É Tudo Verdade, mas desde ontem Valsa com Bashir está em cartaz nos cinemas. O filme já é, antecipadamente, um dos grandes do ano. Valsa com Bashir concorria ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Era favorito, mas sua candidatura foi atropelada pelo filme japonês Okuribito, de Yojiro Takita. Folman também era considerado forte candidato à Palma de Ouro do ano passado, mas quem ganhou o prêmio foi o francês Laurent Cantet, por Entre os Muros da Escola.Em Cannes - a entrevista foi publicada em outubro, quando o filme passou na Mostra -, Ari Folman já relatara ao Estado a gênese de Valsa com Bashir. Roteirista do Exército, ele escrevia aqueles filmes "chatos? - definição sua -, que ninguém queria ver. A atividade burocrática terminou por cansá-lo e Folman pediu uma licença, que foi concedida, mas antes ele recebeu a recomendação de passar por uma avaliação pelo psiquiatra do Exército. Folman, foi, participou de cerca de 20 sessões. Sua vida mudou. E ele fez Valsa com Bashir.O filme reconstitui experiências do diretor na Guerra do Líbano, no começo dos anos 1980, que ele reviveu e racionalizou no divã do psicanalista. Se tivesse feito um documentário tradicional, Folman é o primeiro a admitir que talvez ficasse tão chato quanto os que estava acostumado a escrever. "O formato de animação era atraente e criava problemas que seria estimulante resolver." O filme foi feito com atores. A versão ?live action? serviu de referência para o desenho. Existem cenas de grande impacto. Nenhuma é maior que o desfecho, quando o espectador toma um choque de realidade. ServiçoValsa com Bashir (Israel-França-Alemanha/2008, 87 min.) - Animação. 18 anos. Cotação: Bom

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