Chekhov gira ao som de Ray Conniff

Na peça Mãe É Karma!, com toques do melancólico Tio Vânia, Elias Andreato observa os temores da classe média brasileira

Crítica Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Há um fio de nostalgia na costura de Mãe É Karma!. O título, expressão usada até demais, serve para minimizar o subtexto mais áspero do enredo. É o caso de se definir a peça de Elias Andreato como comédia dramática porque ela, brincando, vai àquilo que o politicamente correto insiste em definir como "a melhor idade". Ao bom-mocismo dessa expressão, o personagem masculino central opõe o que o austero general De Gaulle - que apenas chegou aos 80 anos - escancarou: "A velhice é um naufrágio"; e brasileiros de grande vida, e mais idosos, como Oscar Niemeyer (102 anos) e o compositor Billy Blanco (85) não deixam por menos: "A velhice é uma merda." Isso posto, vai-se, então, conversar com paciência e ternura, mas sem pieguice. Em torno dessa questão navega uma família brasileira, os pais, um filho visto como esquisito e a clássica empregada doméstica. A vida miúda de sempre. Contas a pagar, dinheiro curto, falhas no plano de saúde, manias, doenças, assuntos mal resolvidos ameaçando a paz precária. De Martins Pena aos Oduvaldo Vianna, pai e filho, e Domingos de Oliveira, o tema vai e volta ao longo do tempo. Não é obra para descobrir a pólvora - o autor mesmo a define como "meu pequeno texto" -, mas tem sinceridade e calor humano. Uma dramaturgia que se arrisca em um terreno difícil - o dos pormenores do sexo enquanto fantasma, tabus intramuros, solidão. Não oferece uma reposta convincente, mas avança pelo menos uma fantasia de imensa e desprotegida boa vontade. Afinal, alguém precisa crer no happy end.

Essas pessoas na sala de jantar, aparentemente só ocupadas em nascer e morrer, esbravejam entre si e contra o mundo, gritam. O vivido advogado se acha um derrotado exatamente por ter sido correto; a vivida senhora oscila entre o passadismo e a fibra do "amanhã será outro dia" que ouviu em ...E o Vento Levou. O filho se afoga entre a saturação e a dificuldade de, digamos, matar a família e ir ao cinema. Em meio a tantos problemas subjetivos, a realidade ainda se encarrega de mandar, sempre, más notícias para os idosos, da fila do banco aos exames clínicos. Seria trágico se não fosse cômico. Por meio de imprevistos engenhosos e uma torrente de desaforos a torto e a direito, autor e elenco soltam seus cachorros. É divertido e lava um pouco a alma, sobretudo quando Elias Andreato faz teatro para homenagear o próprio teatro, o que fica evidente na citação de trechos antológicos de Shakespeare, Máximo Gorki, Anton Chekhov e Bertolt Brecht. Quem estiver atento - e se viu espetáculos memoráveis de anos atrás - terá a emoção de relembrar Pequenos Burgueses, de Gorki, do Teatro Oficina, em que ecoava o aviso contundente: "A vida avança, velho, e quem não avança com ela fica para trás." É forte e compensa as duvidosas passagens de duplo sentido erótico e as discutíveis referências gástricas.

Se por tanto amor e tanta emoção a vida fez essa gente assim, é necessário intérpretes no mesmo tom para desvendar sua alma. É preciso um ator que, ao descrever o medo do personagem ao se olhar no espelho, tenha a expressão ofendida e assustada de Renato Borghi. Mais ainda: para a corrente emocional passar, ele necessita de uma parceira irmã do nível de Miriam Mehler. É bonito ver esses dois companheiros de mais de 40 anos de convívio "tocando de ouvido", se percebendo no território do palco e do tempo. Os bravos veteranos não estão sós. Há espaço para Nilton Bicudo resolver, dentro do possível, um papel difuso, pouco verossímil no seu gesto final. Não é fácil trabalhar com a negação silenciosa ou meias palavras. Olivia Araújo se faz notar no ingrato clichê da criada.

Elias Andreato estreia, assim, na escrita cênica, e ainda assina a direção, tranquilo ao seguir a convenção. Cenário (Ulisses Cohn) e figurinos (Andreato) dentro da imagem consagrada da família classe média, iluminação (Wagner Freire) atenta aos climas da ação, e música (Cacá Toledo) despudoradamente saudosista. Pensando bem, o melhor de Mãe É Karma! talvez seja a sua capacidade de juntar o melancólico Chekhov, de Tio Vânia, com o som de Ray Conniff.

Serviço

Mãe É Karma!. 90 min. 14 anos.Teatro Vivo (290 lug.). Avenida Dr. Chucri Zaidan, 860, Morumbi, telefone 7420-1520. 6.ª, às 21h30; sáb., às 21 h; dom., 19 h. R$ 50 e R$ 60 (sáb.). Até 4/10

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