Charme dos derrotados

A peça vai começar rigorosamente às 21 horas, mas, quem chegar ao Teatro Sesc Anchieta 15 minutos antes, terá direito a um belo aperitivo - no momento em que o público estiver se acomodando, um ator estará em cena, observando o cenário ainda na penumbra. A cada olhar, um facho de luz vai revelar um novo detalhe, até que tudo esteja iluminado. "É a presença de Tennessee Williams, que busca na memória imagens que vão compor a história", conta Ulysses Cruz, diretor de O Zoológico de Vidro, peça que primeiro consagrou Williams (1911-1983) e que estreia hoje para convidados e amanhã para o público. "Como se trata de um texto fortemente autobiográfico, durante esses 15 minutos ele vai recolhendo fragmentos para então, às 21 horas, com o terceiro sinal, a montagem ter início."Trata-se de um adorável preâmbulo para uma das mais importantes peças da dramaturgia mundial. Escrita em 1943 e encenada pela primeira vez no ano seguinte, nos Estados Unidos, tornou-se conhecida no Brasil com o título À Margem da Vida e recebeu montagens memoráveis como a de 1976, dirigida por Flávio Rangel. "Foi simplesmente um dos melhores espetáculos que vi na vida", comenta a dramaturga Maria Adelaide Amaral, cujo fascínio pelo texto de Williams se estende aos colegas de ofício (leia depoimentos abaixo)."Como utilizamos uma nova versão do texto, feita por Marcos Daud, decidimos também verter o título original para o português", conta Cruz. E, como Daud tem intimidade com a prosa cênica, o resultado é uma sequência de falas hipnotizantes, ditas pelos atores a uma velocidade capaz de tirar o fôlego da plateia. "Há uma brutalidade mas também um carinho muito grande no relacionamento da família da peça", comenta Cássia Kiss, que interpreta Amanda Wingfield, o papel principal.Ao completar 30 anos de carreira, a atriz buscava um texto marcante e, depois de desistir de Hamlet, chegou à joia rara lapidada por Williams. Amanda é uma mulher amargurada, que deposita sua felicidade na realização dos filhos. Eles, porém, são a própria imagem do fracasso - Tom (Kiko Mascarenhas) é um poeta que trabalha em uma loja de calçados. Narrador da história (portanto, alter ego do autor), ele sonha em deixar a casa mas, frustrado, consome-se na bebida.Introvertida, frágil, Laura (Karen Coelho) é a irmã de Tom. Por causa de um defeito físico nas pernas, vive imersa em seus sonhos, escapando da realidade para se aconchegar na coleção de bichinhos, o zoológico de vidro que inspira o título da peça. "Amanda tem consciência da tragédia vivida pelos filhos mas tenta a todo custo oferecer-lhes uma realidade mais feliz", lembra Cássia. Por isso, ela convence Tom a convidar um amigo do trabalho, Jim (Erom Cordeiro), a vir conhecer Laura e, espera a mãe, casar-se com ela. Afinal, otimista, carismático, Jim é o protótipo do homem sonhado pela fracassada família.O Zoológico de Vidro/À Margem da Vida consagrou Tennessee Williams em 1945, alçando-o do obscurantismo em que vivia na literatura (a peça foi inspirada em um de seus contos, Retrato de Uma Moça de Vidro) ao sucesso pleno. Naquele momento, seu texto violento, mas recheado de candura, surpreendeu a crítica, acostumada a peças com um forte perfil sociológico, como o trabalho de Arthur Miller.Enquanto os teatros eram ocupados por dramas históricos ou conflitos sociais, Williams (cujo verdadeiro nome era Thomas Lanier - Tennessee foi um apelido ganhado na universidade por conta de seu forte sotaque sulista) surgia com uma peça sobre um pequeno fato doméstico. Na verdade, por conta de sua linearidade e aparente ausência de dramas, O Zoológico de Vidro mais se parece com uma cena esticada até atingir a duração de um espetáculo tradicional, sem diálogos muito profundos ou situações de impacto. "Mas é justamente a intensa dor psicológica daquelas pessoas inadequadas para a vida o grande trunfo da peça", acredita Cássia.A atriz, como o restante do elenco, trouxe conflitos pessoais para o processo de maturação do espetáculo. Dramas familiares afloraram a fim de permitir um íntimo conhecimento do texto de Williams. Para isso, colaborou também a tradução de Marcos Daud. "A fluência dos diálogos possibilitou que alternássemos o ritmo das falas, combinando uma sucessão muito rápida com momentos de silêncio", conta Kiko Mascarenhas, que surge durante o prólogo vestido como Tennessee Williams até assumir o papel de Tom, no início da montagem. "Trata-se, praticamente, da mesma pessoa."Reprimido pelo pai alcoólatra, que o tratava jocosamente por Nancy por ele não gostar de esportes típico de rapazes; por uma mãe egoísta; e condoído pela irmã, Rose, que sofreu uma lobotomia em 1943 (fato inspirador da peça De Repente, no Último Verão, de 1957), Tennessee Williams conservou, por isso, um profundo carinho por personagens que vivem à margem da vida social, prisioneiros de suas próprias fraquezas e mentiras. Surgiram, assim, figuras clássicas como Blanche, de Um Bonde Chamado Desejo (1949), a gentil dona sulina que busca consolo no sexo e em ilusões exasperadas; e Maggie, de Gata em Teto de Zinco Quente, mulher que sofre com a rejeição do marido (1955), entre outras. Como Amanda Wingfield, figuras destituídas de ilusão, mas repletas de ternura. ServiçoO Zoológico de Vidro. 110 min. 14 anos. Sesc Consolação (320 lug.). Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 22/2

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