Charlie Kaufman integra lista de favoritos

Diretor fez do engenhoso Synecdoche, New York o Oito e Meio dos anos 2000

Luiz Carlos Merten, Cannes, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 00h00

Uma pesquisa realizada anos atrás mostrou que os filmes vencedores da Palma de Ouro são sempre exibidos nos últimos dias do Festival de Cannes. Há até a exceção que confirma a regra: Ventos da Liberdade, de Ken Loach, recebeu a Palma em 2006, mas havia sido exibido logo no primeiro dia da competição, mantendo-se até o desfecho como uma reserva de qualidade para o júri presidido por Wong Kar-wai. Muita gente saiu do Grand Théâtre Lumière, ontem pela manhã, convencida de haver assistido ao vencedor deste ano. Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman, é o Oito e Meio dos anos 2000, mas o diretor e roteirista disse na coletiva que nunca assistiu ao clássico de Federico Fellini.How sad, que triste! Ao mesmo tempo, a constatação permite fazer uma ponte com o trabalho de Kaufman como roteirista, com O Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças. Há um brilho (superficial) no cinema, escrito e agora realizado, por Kaufman, mas essa mente sem lembranças, a sua ausência de cultura cinematográfica, está ligada ao que é a grande qualidade e o grande defeito da sua obra. O cara é engenhoso, não há dúvida. Ele começa com a descrição prosaica da crise familiar e profissional (ou, melhor, artística) enfrentada por um diretor de teatro que está montando A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller. Essa primeira parte é, digamos, realista. A mulher está insatisfeita, ele sofre um acidente doméstico e descobre que algo não vai bem com sua cabeça (mas os médicos não lhe dizem o que é), a filha, uma menina, começa a fazer cocô verde.Essa tendência segue até o momento em que uma das personagens secundárias compra uma casa em chamas e, a partir daí, o insólito e o surreal vão sendo incorporados ao trabalho. O diretor da peça dentro do filme, interpretado por Philip Seymour Hoffman, recebe uma bolsa para criar um espetáculo com o qual espera revolucionar a arte do século 21. Esse espetáculo é a sua vida, e a idéia-limite a que ele chega é que existem bilhões de pessoas na Terra e todas são protagonistas da própria vida. Parece inteligente, e até é, mas o problema do cinema de Charlie Kaufman é que ele não tem pathos, o que pode ser o reflexo da sociedade e do cinema atuais, que transformaram em modelo de originalidade e criatividade um cara que muda, de filme para filme, exatamente para repetir o mesmo método de escrita. Era assim como roteirista e está sendo assim, agora, como diretor. Kaufman diz que detesta o cinema de gênero, mas ele próprio virou ''seu'' gênero.Gostar ou não gostar, eis a questão. Um jornalista (brasileiro) disse que a essência de Kaufman é, mesmo, o artifício. Mas é discutível que isso seja verdadeiro num filme que quer abranger a vida, a doença, a solidão, a morte, a arte. A questão talvez seja esta: o que é verdadeiro, ou o que é ''verdade''? É o tema (um dos, pelo menos) do filme de Paolo Sorrentino, Il Divo, exibido na quinta à noite. O ''divo'', em questão, é Giulio Andreotti, político que dominou os últimos 50 anos da vida política italiana, tendo sido sete vezes presidente do Conselho de Ministros e 25 vezes ministro, além de senador vitalício. Andreotti, à frente do partido da Democracia Cristã, foi o cara que se recusou a negociar com as Brigadas Vermelhas a libertação de Aldo Moro, e essa é uma cruz que ele carrega no filme de Sorrentino. Você nunca viu, e talvez nunca verá, cinebiografia como esta.Il Divo abre-se com uma frase atribuída a Rosa Andreotti, mãe de Giulio. ''Se você não pode falar bem de uma pessoa, não fale nada.'' A construção da persona política de Andreotti pode muito bem ter começado daí, mas há outras frases do próprio Andreotti que vale reter. ''Quando perguntaram a Jesus, nos Evangelhos, o que é a Verdade, ele não respondeu'' e ''Nos romances policiais, a gente encontra sempre o culpado; na vida, é mais difícil.'' Não são só frases de efeito, mas normas de conduta que Andreotti transformou em dogmas, na vida e na política. Era cínico, ambíguo, uma esfinge. Margaret Thatcher disse dele: ''Não apenas parece absolutamente contrário aos princípios éticos como está convencido de que, na política, uma pessoa de princípios é condenada a ser ridícula.''Por aí o espectador pode ter idéia das dificuldades que Sorrentino encontrou para resumir essa vida num filme. Il Divo prossegue com o rigor extremo de Le Consequenze de l''Amore e L''Amico di Famiglia, mas o que fascina no cinema do autor é a extrema inteligência da mise-en-scène. É algo que vai mais além do artifício de Kaufman. Andreotti era feio; chamavam-no O Inexorável, Moloch, Belzebu. Sorrentino filma bem e monta melhor ainda, mas o chamado ''realismo de cena'' está colocado a serviço de algo mais ''irreal'', sempre um tom acima e que transforma Andreotti em personagem ora patético, ora bufão, mas quase sempre trágico. Como revelar o homem por trás da máscara? Qual sua verdade? Questões complexas que ficam com o espectador e fogem ao modelo do cinema político eficiente (e direto) praticado pelo cinema italiano por volta de 1970. Nada do sentimentalismo de um contemporâneo de Sorrentino, Marco Tullio Giordana, em Os Cem Passos. Sorrentino faz outra coisa. Ele reinventa o tom exacerbado de Elio Petri em seus cults com Gian-Maria Volontè, Investigação sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita e A Classe Operária Vai ao Paraíso.O festival está terminando. A Palma de Ouro será atribuída amanhã à noite. Quais serão as escolhas do júri presidido por Sean Penn? Cannes, este ano, apresentou boa seleção, apesar de algumas decepções (e até equívocos). Os filmes com melhores cotações, na avaliação da crítica internacional, são os de Eastwood (The Exchange), irmãos Dardenne (O Silêncio de Lorna), Bilge Ceylan (Three Monkeys) e Atom Egoyan (Adoration). Kaufman passa a ser um dos favoritos, mas o tipo de cinema que o presidente do júri faz é menos estetizante e mais ''humano''. Isso pode favorecer Walter Salles e Daniela Thomas (Linha de Passe), Pablo Trapero (Leonera) e James Gray (Two Lovers). Ainda faltava exibir ontem o novo Wim Wenders (Shooting in Palermo) e, hoje cedo, o novo Guillaume Cantet (Entre les Murs). Depois disso, é com o júri.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.