Theodor Preising
Theodor Preising

Centro Cultural Fiesp mostra imagens raras da São Paulo antiga

São 61 fotos, feitas entre 1925 e 1940 pelo fotógrafo alemão Theodor Preising, entre elas o registro da passagem do dirigível Hindenburg pela cidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2018 | 06h00

Ao morrer, em 1962, o fotógrafo alemão Theodor Preising deixou um acervo superior a 15 mil negativos, hoje sob os cuidados do bisneto Douglas Aptekmann. Trata-se de uma valiosa documentação histórica das cidades brasileiras – Preising viajou de Norte a Sul do País, registrando desde a chegada de imigrantes até a passagem do dirigível Hindenburg por São Paulo, em 1936, um ano antes que o maior zepelim usado para transporte de passageiros explodisse em Lakehurst, próximo a Nova York. A imagem é uma das 61 fotos exibidas na mostra São Paulo: Sinfonia de Uma Metrópole, que a galeria de fotos do Centro Cultural Fiesp inaugurou ontem, 25, e que fica aberta até 25 de março.

A exposição tem como curador o professor e crítico Rubens Fernandes Junior e reúne fotografias em preto e branco registradas em São Paulo e litoral paulista entre 1925 e 1940. Preising, que tinha espírito de fotojornalista – a imagem do Hindenburg é uma prova –, documentou a chegada dos imigrantes japoneses e europeus na cidade, o carnaval de rua na metrópole, o cotidiano na lavoura de café no interior do Estado e o lazer nas praias do litoral, especialmente em Santos e Guarujá, onde trabalhou como vendedor de cartões-postais que ele mesmo produzia.

“Hoje em dia Preising seria definido como um empreendedor”, observa o curador, que examinou mais de 4 mil negativos para selecionar as 61 imagens da mostra. Duas delas são as preferidas de Rubens Fernandes e mostram o centro antigo de São Paulo ocupado por automóveis e homens de terno. “É possível ver nelas algo da fotografia de Paul Strand”, diz, referindo-se a um dos pioneiros da fotografia moderna, morto em 1976, que, junto a Stieglitz, retratou Nova York com uma visão urbana peculiar, assinando composições em que o homem se funde à arquitetura local.

Preising, a exemplo de Strand, usou igualmente a câmera como um instrumento de registro das transformações sociais – e isso é notável nas imagens que mostram a chegada dos imigrantes a São Paulo. Ele mesmo um imigrante, Preising chegou à cidade em 1923. Fotógrafo nas frentes de combate na 1.ª Guerra Mundial, veio em busca de uma vida melhor – a caótica situação econômica da Alemanha no pós-guerra precipitou muito a emigração e Preising registrou a vida dos patrícios em São Paulo em vários períodos de sua vida, deixando imagens históricas, inclusive de assustadoras manifestações nazistas na cidade.

No entanto, o nome de Preising é pouco lembrado quando se trata dos fotógrafos atuantes no período entre guerras, apesar de ter sido um modernista de primeira hora. “Estamos mostrando as fotos que ele fez para a revista São Paulo em 1936, publicação revolucionária para a época, que contava entre seus colaboradores os escritores Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo”, diz o curador, lembrando ainda que o fotógrafo fez parte do Foto Cine Clube Bandeirante, fundado em 1939 e celeiro da modernidade brasileira (por lá passaram Thomas Farkas e German Lorca, entre outros).

Foi na década de 1930 que Preising colaborou com o Estadão, que então publicava um suplemento de rotogravura. “Ele foi um dos primeiros a usar câmeras de pequeno formato como a Leica e a Contax”, revela o curador, apontando fotos da exposição feitas com a agilidade de um profissional atento ao movimento das ruas.

Na exposição encontram-se documentos raros da época, mostrando prédios históricos já desaparecidos, como o palacete Santa Helena, na praça da Sé, que abrigou o ateliê coletivo do grupo de pintores formado por Volpi, Bonadei e Mário Zanini nos anos 1930. A exposição de Preising vem acompanhada da exibição do documentário São Paulo Sinfonia de Uma Metrópole, realizado em 1929 por Rudolf Rex Lustig e Adalberto Kemeny, diretores húngaros que tomaram como referência o clássico filme do alemão Walter Ruttman, Berlim – Sinfonia da Metrópole (1927).

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