Celebração do diálogo entre forma e conteúdo

Competência visual da obra, ilustrada por Daniel Bueno, se ajusta à proposta de valorizar a dimensão imagética da escrita

Entrevista com

Lucia Santaella, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

Vindo de Décio Pignatari, não é surpreendente que este livro, Bili com Limão Verde na Mão, catalogado como literatura infantil e infanto-juvenil, reserve muitas surpresas ao leitor. Nestes tempos em que crianças e jovens se inundam em ambientes de internet, SMS, Orkut, Twitter, a aventura de Bili, na mais frontal inversão, desenrola-se entre frutos, bichos, cores, pesos e uma estrela. Tudo isso no ritmo dançante de palavras que voam, se roçam, alvoroçam, crescem, encolhem, trocam-se e destrocam-se, compondo uma sinfonia singela e sutil cujos instrumentos, à maneira de animais em extinção, vêm diretamente da natureza natural com a qual jovens, crianças e adultos estão cada vez mais deixando de conviver. Entretanto, junto à singeleza do tema, muitas complexidades coexistem. Em uma dicção bem mais poética do que prosaica - proesia -, a peripécia de Bili e o limão, no intercurso com habitantes das árvores, do ar e da terra, transcorre no período de uma tarde, suficiente para encenar um rito de passagem: do muxoxo raivoso à primeira estrela azul da alegria brilhando no céu. A personagem central, personagem de si mesma, é Belisa, que todos chamam de Bili, a "bela, bélica, bipolar, biruta, biônica à beça", pré-adolescente, "naquela idade incerta e duvidosa, que não é dia claro e já é o alvorecer", como já bem qualificou Machado de Assis. O texto começa com o fluxo de pensamento da personagem, sem ponto nem vírgula. Quando se tornar mulher, Bili certamente vai produzir monólogos similares ao de Molly, no Ulisses de Joyce. As palavras seguem, em cadência de câmera subjetiva, o movimento associativo, oscilante do olhar que perambula pela paisagem provinciana reconhecendo e julgando coisas e pessoas familiares. O engenho literário desse recurso é intensificado pelas passagens sem solavancos, quase imperceptíveis da voz narrativa de terceira para primeira pessoa e desta passando novamente a voz para o narrador. Quando enceta o seu caminho do urbano para o rural, um grito de Tarzoa, no alto da colina, traz para as mãos de Bili, em lugar do objeto mágico do conto maravilhoso, um ímã da má sorte, um limão verde. Atirado pela menina abilolada, em alvos casuais, ao sabor do mau humor, o limão a colocará diante das provas iniciatórias rumo ao amadurecimento emocional. Ao contrário do dito popular "se ganhar um limão, faça dele uma limonada", Bili atrai para si, como se fosse um visgo, tudo aquilo que sua raiva endógena busca afastar do seu caminho. Pela esquisitice, as peripécias lembram as de Alice, que Lewis Carroll eternizou, uma Alice agora um pouco mais velha e menos de bem com a vida.A competência visual do livro, ilustrado por Daniel Bueno, na escolha das cores, desenhos minimalistas e na sua forma acentuadamente retangular casa à perfeição com a exploração do valor imagético da escritura e da visualidade da palavra que gira, corre na vertical, na diagonal e na horizontal no espaço da página. Por isso mesmo, a integração entre palavra e imagem, visão e significado brinca com os sentidos, numa celebração do conteúdo na forma que engendra.O conto está dividido em quatro sequências: Na primeira, que se inicia com a letra garrafal B, de Bili, a personagem é delineada em seus próprios termos, pela voz de sua consciência. A segunda sequência, que dá início à ação, é dividida da primeira por duas páginas atravessadas pela letra L, de limão, justamente o momento em que o limão cai nas mãos da personagem sob efeito do seu grito à natureza. Na terceira sequência, iniciada pela letra V, de verde, ocupando duas páginas, as peripécias da personagem saltam para o mundo onírico, acompanhadas pelo onirismo das trocas de palavras e atributos das coisas. Esta sequência intertextual remete nitidamente ao conto dos animais cantadores de Bremen, dos irmãos Grimm. A última sequência - quando, depois das intempéries, se dá o encontro da personagem consigo mesma - é iniciada por um enorme M, de mão, distribuído em duas páginas. Tais recursos verbo-visuais, evidentemente, não se fazem presentes simplesmente para indicar a distribuição do título Bili com Limão Verde na Mão, ao longo do texto. Juntas, as iniciais - BLVM - inscrevem emblematicamente o nome de Bloom, personagem do Ulisses, de Joyce, essa personagem que viveu uma vida inteira num só dia. Em suma, o livro é lindo, lúdico e leve, feito de palavras e formas voadoras, cheio de ecos e reverberações de obras literárias. Os pintores da arte moderna tomavam as pinturas de seus antecessores e não as paisagens em si como referentes de seus quadros. Tudo parece indicar que, assim também, Pignatari, que vem passando sua existência, vivendo e sonhando com os segredos, ardis e enigmas da linguagem, para este livro, encontrou sua inspiração muito mais no grande arsenal da literatura do que na imitação da vida. Ganham com isso a linguagem e a única pedagogia que vale a pena, a pedagogia lúdica como aquela da música. Lucia Santaella é professora titular na PUC-SP

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