Celebração comovente do Oficina

Com o belo Taniko, grupo incorpora 50 anos de trajetória ao tema da imigração

Mariangela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2008 | 00h00

Ainda encravado no Bixiga, semi-oculto pela sombra de um viaduto que não existia quando se instalou no bairro, ameaçado pelo proeminente shopping centre que pretende colar-se na janela lateral desfigurando, assim, um primoroso projeto arquitetônico, o Teatro Oficina completa este ano meio século de protagonismo no teatro brasileiro. Seus antagonistas ao longo dessa trajetória temporal, mais longa do que a média para grupos de ação cultural, foram poderosíssimos: a classe dominante (quando havia burguesia), a ditadura militar, o poder civil, o conservadorismo manifesto ou oculto sob diferentes ideologias e, por fim, as mil e uma formas de rendição aos apelos sedutores da acumulação capitalista que corroem o coração e a mente dos jovens. Todas essas forças se transmudaram em signos oportunistas, intimamente ligados à pulsação coletiva do bairro, da cidade, do País. São quase incontáveis as teses projetadas a partir dessa reflexão crítica que se enraíza no teatro, mas que se expandiu pela arquitetura, inspirou projetos de urbanização, fomentou ações de agitação e propaganda, repercutiu na música, nas artes plásticas e sobre a teoria da arte cênica. Teatro social na prática na teoria, o Oficina é também um centro de formação de artistas multimídias.Apesar dessa vocação para o combate, faz parte da celebração da meia-idade um espetáculo quase pacífico. Não inteiramente pacífico no que diz respeito às intenções, mas apaziguado por uma formalização respeitosa que homenageia uma das formas do teatro clássico japonês. Sempre atento aos fatos e às redes tramadas entre o acaso e a vontade consciente, o grupo soma à celebração da sua efeméride íntima uma outra memória, a da chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil. Do mesmo modo que absorveu, em espetáculos anteriores, os ritmos e os mitos das culturas regionais, desta vez recorre à geometria delicada de uma fábula do teatro nô. Talvez tenha faltado, no repertório destes 50 anos, a prospecção da cultura transformada pela chegada dos imigrantes europeus e asiáticos no século 20. Por esse ou por outro motivo, Taniko, narrativa inspirada no repertório de textos clássicos japoneses é, além de um diálogo imaginário entre conceitos antitéticos - coisas que o Ocidente nasce sabendo -, uma celebração cênica do modo como o teatro oriental representa o elemento trágico. ''Transzênico'' é mesmo uma boa definição para esse trabalho fronteiriço.Bertolt Brecht, entidade protetora do grupo, recorreu a essa mesma fábula para exemplificar a potência transformadora do pensamento crítico aplicado ao direito consuetudinário. Com procedimento semelhante, também extraindo da fábula uma moralidade, esta encenação propõe uma reconciliação entre pedagogia e gratificação sensorial que o teatro político do século 20, em grande parte motivado pela teoria brechtiana, relegou ao plano das preocupações secundárias. É evidente que a nova aliança repousa sobre uma fundação conceitual diferente. Na perspectiva do Teatro Oficina, o motor de transformação possível é agora o vínculo amoroso. A lei emanada do costume pode e deve ser revogada quando o acordo feito no passado impede a felicidade presente. Com esse mote, o espetáculo sublima a necessidade e a transforma na metáfora do desejo. E é assim que se processa em cena a migração dos monges em um longo percurso pelos mares do planeta até chegar ao Porto de Santos. Em vez de ser apenas um exílio forçado (embora esse componente não seja omitido da narrativa), a viagem dos monges é também uma peregrinação aventureira e, por fim, um meio de contaminação cultural.Sem dúvida, a divindade despedaçada e renascida é mito fundador da cultura ocidental e a memória das celebrações alegres, que ocorrem depois do rito sacrificial, é uma oportunidade para que o espetáculo misture à limpidez da linguagem oriental aos ritmos musicais e as formas coreográficas do nosso mexidinho habitual. Antes desse final multiculturalista, contudo, a encenação articula conexões a um só tempo lógicas e estéticas entre as convenções espaciais e temporais do teatro nô e as práticas da cena contemporânea. O próprio edifício, formatado como lugar de travessia, torna-se figuração ampliada da ponte da cena japonesa. Outras coisas do espetáculo serão, provavelmente, referências a pesquisas minuciosas com que este grupo de estudiosos cerca cada uma das suas produções. Mas, para quem só tem a experiência livresca da cena oriental, não há estranhamento. Entre nós a economia de elementos cênicos, a nitidez das cores primárias, o dualismo complementar das figuras corais são artifícios espetaculares há longo tempo incorporados à linguagem do texto. O que há de especialmente bonito e também comovente neste espetáculo é a evocação explícita do lugar de origem desses empréstimos que, incessantemente, temos feito sem a intenção de saldar a dívida. Tomie Ohtake é nossa e essa satisfação matreira embala, talvez como interlúdio, o devaneio de um guerreiro cinqüentão.Serviço Taniko - O Rito do Mar. 90 min. 16 anos. Teatro Oficina (350 lug.). Rua Jaceguai, 520, Bela Vista, 3106-5300. 6.ª, 21 h; sáb. e dom., 18 h. R$ 20. Até 22/6

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