Ceará tem só jazz em plena folia

Mostra de som instrumental que ocorre em Guaramiranga completa dez anos

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

Guaramiranga é daqueles locais difíceis de acreditar que são reais. Ali, no município incrustado no Maciço de Baturité, região serrana do Ceará, as pessoas passeiam de gorros e luvas e saboreiam fondue em restaurantes da praça. A maioria não está acostumada à temperatura de 17°C que tem feito estes dias, quando a noite cai. A população, estimada em 5 mil habitantes, triplica nesta época do ano, mas não é para se sacudir ao som do frevo, maracatu, samba ou axé. Se no lugar do abadá, centenas de jovens, famílias com crianças e idosos vestem malhas de lã e botas, em vez de tamborins eles preferem dar ouvidos a guitarras, baixos, bateria e piano.   Ouça trecho do xaxado 'Draganjo', por Carol SaboyaHá dez anos esse movimento contrário à lógica brasileira em pleno verão carnavalesco vem se firmando, graças ao Festival de Jazz & Blues, que ocorre todo ano na cidade. Músicos e bandas nacionais e internacionais enfrentam 1h30 de estrada bem pavimentada (com vista para infinitas carnaúbas) desde Fortaleza, a fim de realizarem ensaios abertos e concertos no Teatro Rachel de Queiroz, oficinas na Escola Zélia Matos Brito e jam sessions na quadra municipal, até quase 3 horas da madrugada do dia seguinte. Três pontos que os turistas são capazes de conhecer em menos de 20 minutos, dada a localização comum na principal rua de Guaramiranga, Joaquim Alves Nogueira. "Não temos a intenção de virar um festival de multidão, mesmo porque a cidade não comporta. Seria bom que tivéssemos muitos festivais como este, para poucas pessoas, em todo o País", diz Maria Amélia Mamede, de 46 anos, idealizadora do evento ao lado de Rachel Gadelha, da Via de Comunicação e Cultura.A iniciativa privada, que conta com apoio da Lei Rouanet desde a 2ª edição, e captou cerca de R$ 1,5 milhão para a comemoração destes 10 anos, tem mesmo inspirado outros eventos em diversas partes do País (leia box nesta página). Sem contar que já se estabeleceu como referência entre os músicos que se dedicam exclusivamente à arte que preza harmonia, arranjo e melodia em detrimento à voz. Um dos notáveis nomes que demonstraram alegria por participar do festival pela primeira vez foi Cesar Camargo Mariano, que se apresentou às 22 h de domingo para uma plateia lotada. "Há dez anos há esse namoro entre mim e o festival, mas não conseguíamos acertar as agendas. Finalmente, estou aqui e vou mostrar um pouquinho do meu trabalho com um trio de piano, baixo e bateria, formação com que iniciei minha carreira há 50 anos", disse ele logo após fazer um solo de Samambaia. Antes de convidar Julinho Moreira (bateria) e seu filho Marcelo Mariano (baixo) para subirem ao palco, Cesar deu boas-vindas também aos morcegos, cuja diversão era dar rasantes durante todas as apresentações no teatro. "Bem-vindos sejam os Batmans também", disse arrancando gargalhadas do público. Cesar manteve a simpatia do ensaio gratuito que realizou na tarde de domingo para apresentar as mais variadas músicas de um repertório que visitou Johnny Alf (O Que É Amar) a João Bosco e Aldir Blanc (Bala com Bala). O silêncio absoluto não abandonou o teatro no fim de semana de abertura do Festival Jazz & Blues. Prova de que um público interessado e cativo já se formou no alto da serra. "Quando começamos a idealizar este festival, tínhamos a intenção de oferecer algo que fosse o oposto ao carnaval, pois sempre soubemos de pessoas que não gostam da festa tradicional", conta Maria Amélia. "Quando se pensa no Ceará, logo vem a imagem de praia e, seguindo a lógica a que tínhamos nos proposto, deveríamos subir a serra. Deu tão certo que, por volta da 4ª edição, houve muitas solicitações de se levar o festival para Fortaleza também." Neste ano, o gaitista belga Toots Thielemans, o próprio Cesar e os paulistas da Dixie Square Jazz Band, que se apresentaram em Guaramiranga entre sábado de carnaval e hoje, seguem para a capital cearense, para se espetáculos de quinta a sábado que vem (mais informações no site www.jazzeblues.com.br).Destaque também foi Dominguinhos, homenageado desta edição e que também pela primeira vez no festival. O pernambucano de 68 anos, que poderia ganhar honrarias pela extrema solicitude que lhe é característica, começou o show tocando seus clássicos de forma instrumental, como Isso Aqui Tá Bom Demais, foi atender aos pedidos dos fãs e cedeu ao canto das belíssimas Lamento Sertanejo e De Volta Pro Aconchego. O maior sanfoneiro do País, que começou a tocar acordeão aos 8 anos na feira de Garanhuns para ajudar no sustento da família, frisou a importância do festival de Guaramiranga, que oferece espaço aos instrumentistas, artistas que sempre tiveram dificuldade maior para apresentar seus trabalhos. "Mas isso está mudando, graças a Deus. Eu mesmo observo interesse cada vez maior dos jovens em aprender a tocar o acordeão, que foi relegado à época da bossa nova e obrigou os sanfoneiros a tocar piano, ainda que tivessem dificuldade com a mão esquerda", relembra ele que, por sua vez, nunca abriu mão do instrumento que o consagrou. Foi aplaudido de pé, pouco depois de fazer todo mundo arrastar o pé com Respeita Januário, de autoria de seu padrinho Luiz Gonzaga.O Festival Jazz & Blues ofereceu música instrumental mais experimental com o Trio + 1, formado por Benjamin Taubkin (piano), Zeca Assumpção (contrabaixo), Sérgio Reze (bateria) e Joatan Nascimento (trompete), cuja sonoridade sincopada cativou logo no início. O baixista cearense Nélio Costa, que cursou música na Universidade Estadual do Ceará (UEC) e se aprimorou na Alemanha, onde passou oito anos, também surpreendeu. Nélio já lançou dois álbuns, independentes, Das Origens (2000) e Só Alegria (2002). O guitarrista Lanny Gordin, que se apresentou ao lado de três feras - Fábio Sá (baixo e contrabaixo), Guilherme Held (guitarra) e José Aurélio (timba) -, montou ótima seleção com Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros. Enquanto isso, lá fora, os milhares de jovens se dividiam entre ouvir jam sessions com os cariocas da Beale Street na quadra municipal, e dançar ao som de Estúpido Cupido, da jovem guarda, que saía da caixa de som de um centro cultural. Alguns podem até chamar de samba do crioulo doido, mas para os presentes, isso, sim, é que é carnaval. A repórter viajou a convite da organização do festival

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