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Caverna.club: Homem nascido em pé de café

Portinari produziu mais de 5 mil obras entre pinturas, gravuras e desenhos em seus 58 anos de vida

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 03h00

Candido Portinari tinha horror ao diabo, que habitava suas lembranças desde a infância e permanecia forte no imaginário do adulto. Não à toa, fez um desenho para Antonio Callado. O diabo de Portinari é acocorado, tem olhar de troça e fisionomia de chimpanzé. E mais: orelhudo, unhas longas e pontiagudas, peludo, três dentes alternados. Braços? Abertos para pegar você.

CHUMBO MALDITO

 

Portinari produziu mais de 5 mil obras entre pinturas, gravuras e desenhos em seus 58 anos de vida (portinari.org.br) Um assombro para um homem nascido num cafezal, filho de imigrantes do Vêneto e que mal concluíra o primário. Talvez por isso mesmo. Quando se mudou para o Rio, a primeira vez morou um ano num banheiro de uma pensão. Coisa de obstinado. Deixava de comer para comprar tinta e pintar. A tinta e o chumbo, contido nela, que o levariam à morte em 1962. 

DÍVIDA DE UM PAÍS

 

O livro de Callado, raro documento sobre um dos maiores artistas brasileiros, é revelador em muitos pontos (amzn.to/3pR922E). Mas é pouco para um pintor da dimensão de Portinari. O País tem uma dívida enorme com ele, a começar por uma biografia massuda sobre sua arte, sua vida, suas amizades – como a relação tão próxima que teve com Graciliano Ramos (youtu.be/gX0gPtEZ2BM). E dívida por falta de acesso a suas obras. Grande parte do que produziu Portinari está nas mãos de particulares. Arte para meia dúzia, um contrassenso, algo anti-Portinari. Suas obras colossais, como os painéis Guerra e Paz, na ONU (NY), Tiradentes, no Memorial da América Latina (SP) e os azulejos que revestem o térreo do Edifício Gustavo Capanema (Rio) são exceção. E os afrescos e desenhos no Museu da Casa de Portinari, em Brodowski, na casa onde morou (museucasadeportinari.org.br).

 

DUQUE DE ARAQUE 

O diálogo que melhor define o pintor é aquele travado com o duque de Windsor, durante a exposição de obras sobre retirantes e Brodowski, no livro de Callado. Paris, 1946. O nobre havia gostado das cores dos quadros, mas queria outras temáticas. “Não há umas flores?”, perguntou. “Flores, não. Só tenho miséria.” O pintor, sim, era o retrato da nobreza. Não gostava de piada indecente e de gente que não leva a vida a sério.

*É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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