Catorze jovens bailarinos e uma nova vida pela frente

Grupo, com idades entre 16 e 23 anos, foi selecionado em São Paulo e no Rio para formar o Ballet Jovem DeAnima

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2008 | 00h00

Leonardo Azevedo é bailarino, mas sua mãe, empregada doméstica, nunca teve a oportunidade de assistir a um espetáculo de dança. Em breve, ele espera, isso vai mudar. O rapaz de 22 anos, que vive numa área pobre de Niterói, é um dos 14 jovens selecionados pela companhia carioca DeAnima Balé Contemporâneo para integrar seu Ballet Jovem. São egressos de projetos sociais, para quem a dança chega como esperança de uma nova vida."Por eu ser negro e pobre, muita gente acha que não posso ser bailarino. Onde eu moro, as pessoas me olham torto quando saio de casa com a roupa da dança", conta Leonardo. "Uso essa roupa com o maior orgulho, porque foi isso que escolhi para a minha vida."Iniciada no mês passado, a rotina pesada do "núcleo social-profissionalizante" Ballet Jovem - aulas de segunda a sábado, num total de mais de 26 horas semanais, por um período de dez meses - não assusta ninguém ali. "Estava ansiosa para começar. Fiz uma audição e depois liguei todo dia para saber do resultado", lembra Viviane Abreu, de 19 anos, do Morro do Vidigal. Ela calçou as sapatilhas pela primeira vez no projeto Dançando Para Não Dançar.Selecionados por teste entre 60 candidatos, no Rio e em São Paulo, os meninos, que têm entre 16 e 23 anos, precisam de fôlego. Não fazem apenas aulas de balé clássico e dança contemporânea, nas quais têm a chance de refinar sua técnica, mas também de concepção e criação coreográfica e história da dança. Eles ainda ganharam bolsas de estudo da Cultura Inglesa e terão ingressos para espetáculos disponibilizados pela produtora Dell?Arte. No meio do ano, serão brindados com um workshop com o coreógrafo William Forsythe. Ao fim da jornada, encenarão um espetáculo, que já ganhou o nome de Identidade 14.O projeto, que tem como madrinhas informais as bailarinas Marcia Haydée e Ana Botafogo, é tocado por Roberto de Oliveira, diretor coreográfico do DeAnima, e o lendário Richard Cragun, norte-americano que é um dos principais nomes da dança mundial no século 20 (ele é ex-marido e eterno parceiro de Marcia). O DeAnima já tinha um projeto social que ensinava balé a crianças pobres - atualmente ameaçado por falta de apoio -, mas Oliveira queria mais: formar profissionais, para o Brasil e para o mundo (através de parcerias com companhias da Europa e dos Estados Unidos).Cada jovem recebe R$ 450 líquidos (os que são de fora do Rio, R$ 900) - a Petrobrás é a patrocinadora. "Com 16 ou 17 anos, fica difícil para eles apenas dançarem. A família começa a cobrar, dizer que o menino tem de ir pro Exército", aponta Oliveira, ex-solista do Balletto di Toscana, integrante do Ballet de Stuttgart e fundador do DeAnima, há sete anos. "Estamos dando uma formação para que eles tenham escolha."Cragun, que lhes dá aula de clássico, acredita que os garotos vejam nos dois figuras paternas - o que falta a alguns deles. "Entramos no mundo deles, em que a figura masculina é falha. Queremos mostrar que existem outras formas de ver a vida."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.