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Catálogo raisonné de Leonilson, morto em 1993, dever sair em 2016

Com curadoria de Ricardo Resende, produção da Base7 e edição da Cosac Naify, a publicação será bilíngue

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

29 Junho 2015 | 03h00

Morto dois meses antes de completar 36 anos, de complicações advindas da aids, o artista cearense José Leonilson (1957-1993) é, hoje, um dos artistas brasileiros contemporâneos de maior presença nos museus internacionais. Sua obra está presente no MoMA de Nova York, no Centre Pompidou de Paris e na Tate Modern de Londres, ultrapassando o impressionante número de 4 mil obras, segundo Ricardo Resende, curador do Museu Bispo do Rosário e responsável pela catalogação de sua obra, agora no estágio final. No segundo semestre do próximo ano, o catálogo raisonné de Leonilson será finalmente lançado, após 20 anos de pesquisas do projeto que leva seu nome.

Criado por um grupo de familiares e amigos em 1995, para pesquisar, divulgar e catalogar sua obra, o Projeto Leonilson já tem quase 3 mil imagens digitalizadas dos trabalhos do artista, que vai ganhar um catálogo dividido em três volumes – os dois primeiros com reproduções das obras levantadas até a data da publicação e o segundo com uma reunião dos principais textos críticos e jornalísticos publicados sobre ele. 

Com curadoria de Ricardo Resende, produção da Base7 e edição da Cosac Naify, a publicação, bilíngue, tem o patrocínio direto da Fundação Edson Queiroz, sem recorrer às leis de incentivo. Poucas obras do artista integram o acervo da instituição, que mantém o Espaço Cultural Unifor, um andar inteiro de exposição permanente na Universidade de Fortaleza. Na cidade cearense, o museu que abriga parte da produção inicial de Leonilson é o Dragão do Mar.

Leonilson deixou cedo o Ceará. Veio com a família ainda garoto para São Paulo, estudou artes plásticas na Faap, mas não concluiu o curso. Isso não impediu que, antes dos 30 anos, já fosse um artista conhecido no meio paulistano por sua originalidade e, principalmente, pela coragem de expor publicamente sua vida pessoal nos trabalhos. Muito ligado aos quatro irmãos, Leonilson aprendeu a bordar com a mãe, dona Carmem, hoje com 87 anos, recorrendo à técnica artesanal para realizar obras que, a despeito dos temas densos – entre eles, os efeitos da devastação da aids e o sofrimento de sua geração – são de uma delicadeza extrema.

Leonilson escrevia em desenhos e bordava letras ao lado de figuras, como se escrevesse um diário destinado às gerações futuras. Mais precisamente nos últimos quatro anos de vida, a palavra passa a ser usada não como apêndice, e sim como elemento formal que rivaliza em beleza com o próprio desenho. Ambos se tornam elementos indissociáveis.

Ana Lenice, psicóloga, irmã do artista e presidente do Projeto Leonilson, tem no acervo familiar vários poemas e reflexões suas, mas fica em dúvida se deve ou não publicá-los. “Li num de seus cadernos que ele detestaria ser escritor, que jamais publicaria um texto, e acho que devemos respeitar sua vontade”. Ela não descarta, porém, a ideia de aproveitar parte desse material. “Muitas vezes ele fazia esboços dos trabalhos em cadernos, inclusive os bordados, que minha mãe, excelente bordadeira, via com olhar crítico”. Dona Carmem, claro, atentava para a execução, sem entender, provavelmente, que os “erros” – tanto de ortografia como de alinhamento – eram deliberados. Leonilson traduzia, enfim, o malogro da tentativa de ser perfeito ou incorporar um ofício culturalmente ligado às mulheres. Nesse sentido, a ambiguidade é um dos traços que identificam a obra autobiográfica de Leonilson.

Os trabalhos mais “reveladores” de Leonilson são também os mais “misteriosos”. Ainda que pareça paradoxal, grande parte da obra do artista é propositalmente ambígua, pois não “entrega” diretamente a verdade, como o próprio artista admitia. A obra reproduzida nesta página traz, por exemplo, o coração como figura dominante. Aparentemente, o uso do signo sugere uma vocação jocosa para o camp, um comentário sobre a representação do órgão como sinônimo romântico da paixão, mas Leonilson, certamente, não era cínico. Ainda que recorra a uma metonímia, trocando sua paixão por um objeto simbolizado, Leonilson acreditava na materialização de um sentimento por meio do gesto expressivo – seja um bordado ou uma pincelada. Sua poética, no entanto, vai na contramão da pintura expansiva, neoexpressionista, que emergia na época de suas primeiras exposições, na década de 1980.

“Leonilson faz um voo solo entre os artistas da chamada Geração 80”, observa o curador do catálogo, Ricardo Resende. Com isso ele quer diz que, avesso aos gestos expansivos, extrovertidos, dos pintores marcados pela influência dos pós-modernos italianos ou dos “novos selvagens” alemães – figuras dominantes na época do retorno à pintura, nos anos 1980, como uma resposta à ditadura conceitual dos anos 1970 –, Leonilson “enveredou por outras formas de expressão”. Intimistas, seus pequenos bordados, que lembram os das antigas civilizações do Eufrates, por vezes assumem uma dimensão liliputiana, quase um pentimento, em que um ponto se sobrepõe a outro como um desenho camuflado, enigmático.

Parte dessa obra estará disponível para visualização ainda este ano no site do Projeto Leonilson. Para o primeiro semestre do próximo ano está previsto um seminário com especialistas em sua obra para definir o que, afinal, é esboço ou trabalho final em sua produção. Antes disso, ainda este ano, deve estrear A Paixão de JL, de Carlos Nader, filme vencedor do festival É Tudo Verdade, que foi baseado nas fitas gravadas pelo artista nos últimos três anos de vida. Também será realizada em Fortaleza, em 2016, no Espaço Cultural Unifor, uma exposição com obras suas.

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